A princípio, teve visto absurdamente negado para viajar do Afeganistão, onde reside, aos EUA
Houve manifestação popular internacional com mensagens virtuais e telefonemas a políticos dos EUA
Não conseguiram impedir: abaixo, um "estrago" nos EUA do tamanho do coração de Jesus, por Malalaï Joya
Vídeo: Entrevista de Joya à rádio
Uprising dos EUA, 7.4.2011, clique
aquiEntre outras coisas, a afegã comenta a Guerra no Afeganistão e afirma que não são novidade atos dos "Esquadrões da Morte", militares norteamericanos que, conforme notícia mundial nas últimas semanas, matam civis afegãos inocentes colocando armas em seus corpos, a fim de acusá-los de terroristas - tal notícia traduzida de
La Jornada com galeria de fotos, aqui no
Blog. Nesta entrevista, Joya também afirma que o governo dos EUA não queriam que ela entrasse no país com medo de suas exposições sobre a realidade afegã, e dos bombardeios ocultos ao Ocidente por parte das tropas dos EUA/OTAN, matando civis inocentes
TURNÊ DE MALALAÏ JOYA NOS EUA E A (ANTI) DEMOCRACIA DO PAÍS: SINAL DOS TEMPOS
Inicialmente, o Departamento de Estado dos EUA recusou-se a conceder visto à líder afegã, decisão revertida
após protestos mundiais. Em tempos que alguém que defende direitos humanos não pode dar sua voz nos EUA,
fica uma vez mais provada a democracia hollywoodiana do país
por Edu Montesanti, Nolan Chart, 23.4.2011
tradução de Edu MontesantiRidicularizados por Hollywood, discriminados pela mídia ocidental. Os árabes são historicamente subjugados pelas grandes potências, e desde que a Guerra Fria terminou os EUA buscam, desesperadamente, novos inimigos para enriquecer seu poderio militar e espalhar o domínio global. O país, com sucesso e muitas vezes
hollywoodianamente, encontrou esses inimigos: árabes terroristas. No Ocidente, tal substantivo é sinônimo de muçulmano, que, diretamente, significa "terrorista" em nossa mente - ou, ao menos, terrorista em potencial, triste e injusta ideia generalizada entre nós muito antes de Bush filho, e sua conversa fiada de Guerra do Bem contra o Mal no Oriente Médio.
Não é fundamentalmente necesssário que
WikiLeaks tenha recentemente revelado
telegrama enviado pela CIA questionando, "E se os estrangeiros considerarem os EUA um país exportador de terrorismo?", preocupada com o fato de que o país historicamente produz terroristas, para que nos olhemos no espelho:
Em 6 de fevereiro,
WikiLeaks divulgou um cabo da Embaixada dos EUA (
quinto documento, original) em que a embaixadora no Brasil, sra. Lisa Kubiske, pressionou o governo brasileiro e corrompeu a mídia local, a fim de não votar na
ONU o projeto de lei para punir difamação religiosa. Essa é a grande e objetiva prova do sutil e subjetivo filme que vemos há muito tempo, evidência que só um cego não vê (o pior cego é aquele que não quer enxergar): se uma criança palestina atira pedra contra um tanque de guerra israelense, é sumariamente acusada de terrorista, enquanto este mesmo tanque que ataca
crianças, mulheres, hospitais, escolas e alvos civis em geral, para a mídia ocidental em geral "está apenas defendendo o Estado e seus bons princípios". Mas nem essa outra lamentável revelação seria necessária para que tenhamos claramente à vista a essência da política externa norteamericana, vejamos a seguir por quê.
Em 1º de março, nove meninos afegãos (alguns deles com 9 anos de idade) que recolhiam lenha para aquecer suas casas nas montanhas do leste do Afeganistão, foram mortos por helicóptero de guerra da OTAN, que os confundiu com insurgentes. "Lamentamos profundamente essa tragédia, e pedimos desculpas aos membros do governo afegão, ao povo do Afeganistão e, mais importante, aos membros sobreviventes das famílias dos que morreram em nossas ações", disse o comandante das forças da OTAN no Afeganistão, o general norteamericano David H. Petraeus. "Essas mortes nunca deveriam ter ocorrido". Enquanto isso, os afegãos, naturalmente, protestaram contra nossa antiga e sangrenta "missão cristã" em seu país, gritando: "morte, morte aos Estados Unidos", e "morte a Obama e a seus colegas e associados! "(
The New York Times, traduzido para o português
aqui no Blog).
Enquanto as desculpas de Petraus são consideradas o exemplo mais sublime de humildade cristã, os manifestantes afegãos são considerados muçulmanos terroristas por nós, homens de guerra que não sabem perdoar os outros. Mas o festival de hipocrisia e as provas de que se busca poder escondendo-se atrás da religião e da democracia, não terminam aí.
Malalaï Joya tem sido considerada a mulher mais corajosa do Afeganistão. Expulsa da
Loya Jirga em 2003 (a fim de aprovar a nova Constituição do país) por denunciar frente a frente os senhores da guerra traficantes de droga no local e, mais tarde em 2005, expulsa do cargo no Parlamento pela mesma motivo após ter sido constantemente insultada e até agredida fisicamente. Atualmente, após ter sofrido cinco tentativas de assassinato no Afeganistão, Joya vive escondida e só trafega no Afeganistão de táxi escondida em uma burca, cercada por 12 seguranças fortemente armados. Premiada em todo o mundo, especialmente na Europa, não tem trabalho, vive sob apoio internacional e recentemente escreveu sua biografia
A Woman among Warlords (comentário em português deste livro, mais acima).
Convidada a uma turnê nos EUA em março, para falar sobre seu livro, a Embaixada dos EUA no Afeganistão negou a Joya visto de entrada no país, aparentemente porque está desempregada e vive escondida, disseram os
lords da democracia a ela. Não satisfeitos, foram ainda além: "Nós sabemos muito bem quem você é", disse um funcionário da Embaixada.
Após protestos mundias através de mensagens eletrônicas e telefonemas a políticos dos EUA, Joya finalmente conseguiu visto, e sua turnê de três semanas nos EUA foi bastante barulhenta, apesar da omissão da grande mídia: concedeu diversas entrevistas, entre elas uma para o rádio
Uprising (acima) e outra para o
Harvard International Review (tradução na íntegra, mais abaixo), encontrou-se com o professor do Noam Chomsky para uma discussão sobre a política dos EUA no Afeganistão, e participou de um comício em San Francisco (tradução de matéria com exposição de áudio e vídeo, mais abaixo).
Vale a pena mencionar algumas de suas declarações e relatos sobre ela, durante seus dias no país, preenchendo a omissão da mídia
gorda:

Ela [Joya] falou brevemente sobre como a CIA se beneficia do tráfico de ópio em seu país. Embora não seja amiga dos talibans, ela reconhece que, durante seu governo, a produção de ópio no Afeganistão foi quase 0% da oferta mundial e, uma vez que a CIA, com a ajuda dos senhores da guerra do ópio, assumiu o governo, a produção é de mais de 93% da oferta mundial.
A séria questão para o povo norteamericano é: quem se beneficia deste comércio de ópio? Até onde vai a cadeia de lucros? Se a CIA lucra, isso significa que Leon Panetta lucra? Isso significa que Obama lucra? E de que maneira isso é do nosso interesse nacional? (The Rag Blog, traduzido mais abaixo).
"Os Estados Unidos invadiram meu país sob a bandeira dos direitos das mulheres, direitos humanos e democracia, mas hoje estamos tão longe desses objetivos como estávamos em 2001", disse Joya. "Eles mantêm a situação sem lei e insegura a fim de ter uma desculpa para ficar no Afeganistão, e alcançar seus próprios interesses."
"O povo afegão está esmagado entre três inimigos: os talibans, os senhores da guerra e as forças de ocupação."
"A razão pela qual eles se recusaram a me dar visto, eu acho, é porque expus as políticas erradas do seu governo, e eu falo sobre a realidade da chamada "Guerra ao Terror", e falo sobre os crimes de guerra o quegseu Governo está cometendo em nome do povo norteamericano", afirmou Joya. "Essas são as razões pelas quais eles têm medo de mim, e não me deixam entrar os EUA" (Memorial Church, traduzido mais abaixo).
"É um segredo aberto hoje, que os EUA são padrinhos do fundamentalismo islamita na região. Todos os grupos fundamentalistas terroristas da Al-Qaeda, os talibans e os nossos chefes militares da Aliança do Norte foram criados, financiados e alimentados pela CIA durante a Guerra Fria. O cinturão verde do conceito de extremismo e de jihad, que foi financiado e executado pela CIA através do ISI do Paquistão, causou todos os problemas atuais, e os EUA ainda precisa desses grupos para avançar sua agenda de guerra de longo prazo na região."
"(...) Sob as bandeiras bonitas da democracia, dos direitos das mulheres e direitos humanos, os EUA apoiam os senhores da guerra misóginos,"
"O governo dos EUA impôs ao meu povo uma caricatura de democracia, com as mãos sujas de sangue. É por isso que hoje, o Afeganistão é um inferno. Quando Obama tomou posse, infelizmente, a primeira notícia ao meu povo foi mais conflito porque ele aumentou o nível de tropas, o que trouxe mais massacres, mais violência, mais miséria e mais tragédias. E agora, a administração Obama tem invadido a Líbia sob a mesma bandeira dos direitos humanos. Porque, para meu povo, Obama é tão perigoso quanto Bush. Ele provou ser um fomentador da guerra por seu apoio a seus caudilhos. Através deles, os ocupantes têm levado meu país a um período de trevas" (The Harvard International Review).Democracia, liberdade e muito trabalho fizeram os EUA grande, hoje um país decadente exatamente porque tem traído seus fundamentos, copiando as ficções de
Hollywood tanto para a democracia quanto para a violência, em casa e no exterior, ao mesmo tempo que dá à indústria do cinema e à mídia em geral a licença para distrair-nos da realidade. Os EUA permitiram-se corromper pelo poder.
Ironia do destino: uma
mulher afegã defendendo direitos humanos e fim de uma guerra, é proibida dar a voz no berço da democracia. Mas quando consegue isso, não encontra eco na mídia local. Quem quer liberdade, tem que dar liberdade, mas há muito a democracia dos EUA está manchada de sangue correndo sério risco, ou até mesmo o país não a tem vivido de forma eficaz, já que rotula e impiedosamente massacra inocentes em outras partes do globo em nome da religião, do poder, do petróleo e do dólar. Até quando nos enganaremos a nós mesmos? Eu não digo "amém" a isso.
PS: Sinceramente, você se sente representado pela chamada democracia representativa, você se sente parte dos governos, ou sente que o povo é algo separdo, afastado de governantes? Você acha que as prisões e torturas de Guantánamo, a "Guerra ao Terror", os
bailouts, a espionagem e corrupção de embaixadores norteamericanos em todo o mundo revelados por
WikiLeaks, são feitos por você, tudo isso é sua vontade, a vontade do povo?
ROBERT DREYFUSS: UM DIA COM MALALAÏ JOYA
Passei o dia ontem com Malalaï, em Maryland do Sul, Onde houve uma palestra na Faculdade Santa Maria
por Robert Dreyfuss*, em The Nation, 14.4.2011tradução de Edu MontesantiNão há consonância entre as revoltas que agitam o mundo árabe e o Irã, e a situação é muito mais difícil no Afeganistão. Arrasado por três décadas de guerra, ocupado pelos Estados Unidos e pela OTAN, e governado por caudilhos corruptos e políticos dados à ostentação, os revolucionários e ativistas pró-democracia no Afeganistão enfrentam desafio extra: ao contrário, digamos, do Egito, não há a cultura conectada ao Facebook, Twitter e outros sítios de rede social, e em muitas áreas não há sequer energia elétrica nem dispositivos eletrônicos.
Mas isso não detém Malalaï Joya.
Passei o dia ontem com Malalaï, em Maryland do Sul, onde houve uma palestra na Faculdade Santa Maria, instituição pública no distrito de Santa Maria. Ela é uma mulher notadamente jovem, uma ativista educada em campos de refugiados no Paquistão nos anos de 1990, em parte, em escolas dirigidas pela Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA, na sigla em inglês). Ela era professora em escolas clandestinas no Afeganistão durante a era taliban e, na província de Farah, sua terra natal, montou clínicas gratuitas e um orfanato. Em 2003, com 25 anos de idade, virou notícia mundial por, de pé em um conselho nacional, denunciar não só o Taliban mas também os senhores da guerra que haviam ascendido ao poder do país, com apoio norteamericano. Em 2005, foi eleita ao parlamento do Afeganistão, dominado então, como agora, por ultraconservadores, os senhores da guerra e outros políticos corruptos, mas dois anos depois foi suspensa do Parlamento devido à sua crítica feroz ao parlamento do Afeganistão, e ao governo. Desde então, ela vive escondida, sobrevivendo a uma série de tentativas de assassinato. Em 2010, foi nomeada pela revista
Time uma das 100 pessoas mais Influentes do mundo.
Joya diz que quer que as tropas dos EUA e da OTAN saiam imediatamente. "Eles deveriam ir embora", diz ela. "A futura guerra civil não será mais perigosa do que a atual guerra civil". Ela é radicalmente contra os talibans, mas é igualmente forte opositora dos bandidos que comandam a velha Aliança do Norte e seus aliados, que eram apoiados pelos Estados Unidos em 2001, e pelo presidente Karzai.
Ela está atualmente em uma turnê nos Estados Unidos, em parte para promover um novo livro,
A Woman among Warlords (Uma Mulher entre os Senhores da Guerra). Sua viagem foi interrompida porque, inicialmente, o Departamento de Estado norteamericano recusou-se a lhe conceder visto, em tese depois que ela lhes disse que vive escondida e está desempregada no Afeganistão - a decisão só foi revertida após protestos em todo o mundo. "Nós sabemos muito bem quem é você", disse um funcionário da embaixada, lembra Joya.
A fim de qualificar as circunstâncias em que ela se organiza no Afeganistão, é difícil aplicar um eufemismo. A mídia, na maioria das vezes, é controlada pelo governo e seus aliados. Quanto à Internet, ela diz: "São poucos, muito poucos os que têm acesso. Apenas cerca de 2 por cento dos afegãos têm acesso ao Facebook e ao Twitter, principalmente médicos e assim por diante. "Não é só o governo de Karzai irremediavelmente corrupto e inclinado ao Taliban", diz ela, "mas o parlamento é desesperador. Você pode contar em uma mão o número de pessoas no parlamento que são pró-democracia". E, embora haja alguns partidos e ONGs progressistas no Afeganistão - o que significa, nas palavras dela, "antifundamentalistas, pró-democracia" - estão mal organizados, principalmente clandestinamente ou à margem da política. Ela cita a RAWA, o
Afghanistan Solidarity Party (Partido da Solidariedade do Afeganistão), a
Organization for the Promotion of Afghan Women's Capabilities (Organização para a Promoção das Capacidades das Mulheres Afegãs), e alguns outros.
Apesar das dificuldades quase impossíveis que enfrenta, Joya diz: "Temos duas escolhas. Sentarmo-nos em silêncio, ou lutar. Mas eu estou viva. Não esperava estar viva". Ainda assim, ela não pode viajar dentro do Afeganistão, não pode visitar as províncias. Em Cabul, para sua segurança, muda-se constantemente de casa.
Em conversa na Santa Maria, em que participaram cerca de cem entusiasmados alunos, Malalaï apresentou sua visão da guerra. Ela é baixa, estende-se para alcançar o microfone, com longos cabelos castanhos e lisos, piscando olhos castanhos. Vestida com terninho escuro, cachecol rosa brilhante e, o que não é surpresa, sem véu. Às vezes, a voz dela, que carrega uma raiva controlada, aumenta o volume acercando-se do grito, e enquanto eu observava o rosto jovem do público, que parecia quase perplexo, posteriormente fez uma série de questões bem articuladas e bem- fundamentadas que mostraram que ele tinham absorvido a mensagem da afegã.
"Em meu país, o resultado da política externa de Barack Obama, o envio de mais tropas, significa mais massacres", diz ela. Desde 2001, os Estados Unidos têm pressionado o Afeganistão "da frigideira direto ao fogo", e para aqueles que argumentam que os Estados Unidos devam ficar no Afeganistão para impedir que as mulheres continuem sendo vítimas dos talibans e de outros islamitas socialmente conservadores do Afeganistão, diz: "A guerra nunca vai ajudar as mulheres afegãs".
Joya não vai ouvir falar da necessidade dos Estados Unidos e de Karzai de negociar um acordo político com os talibans, para acabar com a guerra. O Taliban, diz ela, foi criado e apoiado pelos Estados Unidos e seus aliados, na Arábia Saudita e Paquistão, e no final os Estados Unidos poderiam muito bem, mais uma vez, aceitar um regime taliban liderado pelo Taliban ou influenciado por ele no país, se estes cedem aos interesses norteamericanos. Além disso, diz, há pouca ou nenhuma diferença entre o Taliban e seus inimigos na maior parte do Tajiquistão e do Uzbequistão sob a Aliança do Norte, cujos líderes foram responsáveis por algumas das atrocidades mais sangrentas da guerra civil, no início da década de 1990. E ela é militantemente contra o Islã político, ao estilo dos talibans ou os dos senhores da guerra, que "misturam Islã com política, para usá-los contra o povo.
Ela está engajada em uma longa luta. Seus aliados, diz, são as pessoas inocentes do Afeganistão que odeiam tanto o Taliban quanto seus inimigos no governo. "As mulheres que foram estupradas, as pessoas que não têm o que comer, o povo sendo bombardeado pelos EUA e pela OTAN, eles são meus heróis", diz Joya.
Robert Dreyfuss, editor colaborador de The Nation, é jornalista investigativo em Alexandria, Virginia, especializado em política e segurança nacional. Ele é o autor de Devil's Game: How the United States Helped Unleash Fundamentalist Islam, e é frequente colaborador de Rolling Stone, The American Prospect, e Mother JonesANTIGUERRA E DEFENSORA DOS DIREITOS HUMANOS FALA ABERTAMENTE
Ela defende que a justiça em prol das pessoas devem exigir
que o secretário de Estado, Robert Gates, e outras autoridades sejam questionadas
The Western Sun, 13.4.2011Tradução de Edu MontesantiEm 2010, ela foi aclamada pela revista
Time uma das pessoas mais influentes do mundo. Nesse mesmo ano, foi indicada à lista anual da revista
Foreign Policy, entre os "100 Pensadores Top Globais". Ela sobreviveu a quatro tentativas de assassinato.
O nome dela não é familiar ao Ocidente, mas no Oriente Médio seu nome inflama paixões nos corações dos rebeldes, e ressoa indignação entre os aproveitadores da guerra. Malalaï Joya, ex-parlamentar expulsa do cargo eletivo no Afeganistão, falou na
Golden West College (GWC) em Huntington Beach, Califórnia, sexta-feira 8 de abril. Ela trilhou um longo caminho desde sua casa.
A instrutora e conselheira do
Peace Mind and Body club (clube Paz no Espírito e no Corpo), Fran Farazdaghi, sentiu-se "honrada" quando se viu diante da oportunidade de ter Malalai apresentando sua história no
campus da faculdade, como parte da turnê do livro de memórias de Joya, "Uma Mulher entre os Senhores da Guerra: A Extraordinária História de uma Afegã que se Atreveu a Erguer a Voz".
Soonali Kolhatkar, co-diretora da
Afghan Women's Mission (Missão das Mulheres Afegãs), elogiou o heroísmo de Joya na introdução, enaltecendo sua coragem: "Ela usou seu poder, usou sua presença para enfrentar os senhores da guerra, que a haviam ameaçado".
Kolhatkar contou à platéia do I Fórum do GWC das dificuldades que enfrentou Joya em sua batalha para desafiar os opressores da verdadeira democracia afegã, e como ela continua propagando o movimento antiguerra, compartilhando suas experiências e divulgando a tragédia da vida das pessoas, levadas ao fogo cruzado de uma guerra que, ela acredita, agora causam mais mal do que bem.
"Não é o suficiente levar ao tribunal as poucas pessoas que cometem crimes de guerra... na minha província natal, no ano passado, em um único dia 150 pessoas foram mortas por fósforo branco [queimaduras]... e pedir desculpa pagando 2 mil dólares, não é suficiente" disse Joya.
Ela defende que a justiça, em prol das pessoas, deve exigir que o secretário de Estado, Robert Gates, e outras autoridades sejam questionadas.
Seu principal argumento é que a OTAN e os Estados Unidos estavam gravemente equivocados quando aprovaram os antigos senhores da guerra da década de 1990, após ter destituído o Taliban.
Ela clamou que a melhor maneira que o "povo amante da paz no Ocidente" poderia ajudar o Afeganistão, seria investindo nas escolas, nas organizações sem fins lucrativos e apoiando o amplo movimento popular afegão por democracia.
Ela afirmou que bombardear e matar não ajudam mulheres e crianças, estupradas e desconfiguradas, nem os manifestantes estudantis que são espancados e assassinados. Ela afirma que subsidiar os esforços de guerra apenas incentiva a corrupção, asfixia o crescimento da democracia e alimenta o fascismo.
Ela citou a terceirização de um contrato de mina afegã de cobre para a estatal chinesa
Metallurgical Group em 2007, como uma das muitas maneiras que o povo do Afeganistão tem sido roubado dos lucros adquiridos a partir de seus próprios recursos naturais.
O incidente rendeu muitas críticas quando foi divulgado que o ministro afegão, Mohammad Ibrahim Adel, aceitou um suborno de 30 milhões de dólares para aprovar a venda do contrato à empresa chinesa.
Ao tentar entrar nos EUA em março deste ano para dar continuidade ao giro de seu livro, o visto de entrada à Joya foi negado.
Joya afirmou que as razões apresentadas foram o fato de que ela estava vivendo escondida [jurada de morte tanto por talibans, quanto por senhores a guerra,
grifo deste Blog] e por estar desempregada, ambos os problemas de anteriormente acabaram não sendo assim de acordo com o Departamento de Estado dos EUA.
Ela explicou que foi graças a uma enorme quantidade de petições e de protestos de apoiantes, que conseguiu ter a negação ao país revista.
Joya sugeriu que as razões políticas para a recusa se deram, talvez, porque ela tinha "exposto algumas políticas erradas", irritando as pessoas no poder que lucram com a guerra.
Quais são as políticas corretas? O Afeganistão pode alcançar paz e democracia em seu próprio país?
Após 10 anos de ocupação, é hora de retirar as forças e permitir que o povo do Afeganistão aprenda a promover tudo isso por si mesmo? Malalaï acredita que sim.
UMA DEFENSORA DAS MULHERES AFEGÃS: AO OUVIR MALALAÏ JOYA
The Rag Blog, 12.4.2011
Tradução de Edu MontesantiMalalai Joya tem lutado por todas elas. Ela não tem medo. Você olha em seus olhos, e o medo se derrete
MINEÁPOLIS - Eu conheci a pessoa mais corajosa do mundo na noite de sexta, 1º de abril, na Igreja Santa Joana d'Arc, sul de Mineápolis, quando ouvi Malalai Joya falando.
Ela tem cerca de 1,50 m de altura, uma voz suave e espinha dorsal forte como aço. Foi expulsa do Parlamento afegão (depois de ter sido, aos 26 anos, a pessoa mais jovem eleita), porque ela "insultou" os senhores da guerra e do ópio afegão, e o governo dos EUA por apoiar a liderança corrupta de Hamid Karzai.
Foram quatro tentativas de assassinato em sua vida [cinco
, grifo deste Blog]. O Taliban a odeia porque organiza grupos de mulheres e escolas para meninas.
Malalai Joya tem resistido a todos eles. Ela não tem medo. Você olha em seus olhos e o medo se derrete. Você acaba curtindo o fato de que todas as suas lutas são mera brincadeira de criança dentro de uma caixa segura, em relação à sua luta para melhorar a vida de jovens mulheres no Afeganistão.
Ela acredita apaixonadamente que as mulheres no Afeganistão estariam melhor se os EUA deixassem imediatamente o país. Ela considera as atitudes do Taliban em relação às mulheres muito menos perigosas à sua saúde, que os ataques aéreos.
Ela falou brevemente sobre como a CIA se beneficia do tráfico de ópio em seu país. Embora não seja amiga dos talibans, ela reconhece que, durante seu governo, a produção de ópio no Afeganistão foi quase 0% da oferta mundial e, uma vez que a CIA, com a ajuda dos senhores da guerra do ópio, assumiu o governo, a produção é de mais de 93% da oferta mundial.
A séria questão para o povo norteamericano é: quem se beneficia deste comércio de ópio? Até onde vai a cadeia de lucros? Se a CIA lucra, isso significa que Leon Panetta lucra? Isso significa que Obama lucra? E de que maneira isso é do nosso interesse nacional?
Apoio ao trabalho de Malalaï Joya pode ser direcionado à
Afghan Women's Mission, em
www.afghanwomensmission.org.
[Ed Felien é articulista e editor de Southside Pride, veículo mensal de Mineápolis do Sul]ACABEM COM AS GUERRAS EM CASA [EUA] E NO EXTERIOR - TRAGAM AS TROPAS PARA CASA AGORA!
Foto: Joya discursando
Indy Bay, 11.4.2011tradução de Edu MontesantiUm comício e marcha antiguerra foi realizado em San Francisco, dia 10 de abril no Parque Dolores. Ouviu-se por cerca de duas horas alto-falantes do estágio em que se falou contra a guerra e dos problemas políticos. Entre os oradores estava a deputada afegã Malalai Joya, suspensa do Parlamento do Afeganistão por denunciar os senhores da guerra, e a guerra e a ocupação dos EUA / OTAN.
Após o comício, os manifestantes fizeram passeata por quilômetros na cidade de Missão, seguidos por
menor grupo de oradores atrás, no Parque Dolores. A mensagem foi clara: acabar com todas as guerras, trazer de volta para casa as tropas agora, parar os ataques contra os trabalhadores; usar o dinheiro de guerra para necessidades humanas em casa, tais como saúde, habitação, educação e emprego; terminar a interferência do governo dos EUA em assuntos de outros países, especialmente no Oriente Médio, e libertar presos políticos. A manifestação foi patrocinada pela
Comitê Unido Antiguerra dos Estados Unidos (UNAC, na sigla em inglês), e endossado por centenas de organizações de justiça social.
Foto: Joya é a segunda, da esquerda para a direita
Patricia Jackson escreve: "Nós continuamos marchando, sustentando nossa energia e solidificando-nos na resistência nascida no Oriente Médio e em Wisconsin. Na manifestação bem organizada e na marcha de domingo, 10 de abril, ouvimos de oradores sobre os irmãos e irmãs envolvidos em justiça social em todo o globo. Ficamos sabendo que os 10 trabalhadores da empresa ILWU Local que fecharam as portas aqui, em solidariedade com a marcha
Nós Somos Um, estão sob ataque por suas ações e precisam do nosso apoio.
Ouvimos as mensagens dos presos políticos, Mumia Abu Jamal e Lynne Stewart. Ouvimos o outro lado da "ajuda humanitária". Os esforços na Líbia. Recomenda-se boicote a todos os produtos da GE; aos fabricantes de armas nucleares e das usinas de energia nuclear; apoiamos os 11 alunos de Irvine, agora ameaçados à pena de prisão por apenas reivindicar uma conversa em seu campus com o embaixador de Israel; ficamos sabendo que os ativistas em Chicago estão enfrentando um Grande Júri pelo ativismo antiguerra, e exigiram saber o que os militares estão fazendo com Bradley Manning. À medida que marchamos do Parque Dolores por Missão, as pessoas nas calçadas aplaudiram e motoristas buzinavam em apoio.
O FRACASSO DOS ESTADOS UNIDOS NO AFEGANISTÃO
Entrevista com Malalai Joya: "EUA é o padrinho do fundamentalismo islamita na região"
"Estamos pedindo solidariedade, a ajuda das pessoas amantes da justiça nos EUA,
das pessoas amantes da paz ao redor do mundo"
"Cometem todos os seus erros em nome da democracia,
e algumas pessoas dizem que se isso é democracia, não queremos isso!"
The Harvard International Review, 10.4.2011
Tradução de Edu MontesantiHarvard International Review: Quais as mudanças no Afeganistão, desde a queda do Taliban?
Em especial, como tem mudado a vida das mulheres?Malalai Joya: Os EUA invadiram meu país sob a bandeira da guerra contra o terrorismo, direitos das mulheres, direitos humanos e democracia. Mas mesmo com a presença de dezenas de milhares de soldados, não só as mulheres afegãs, mas também os homens sofrem com a guerra, com o terrorismo, injustiça, com a regra da máfia da droga e dos senhores da guerra, com a insegurança, o desemprego, pobreza, corrupção sem precedentes, e muitos outros problemas. Embora seja verdade que os direitos das mulheres, a situação pode ter melhorado quando você a compara com o regime bárbaro dos talibans, algumas mulheres têm agora emprego e acesso à educação, isso é usado para justificar a ocupação. Na maioria dos lugares, sobretudo nas aldeias, a condição das mulheres ainda é um inferno.
Agora, estupro, violência doméstica, a matança de mulheres, queima de suas escolas, e muitos outros tipos de violência e injustiças contra as mulheres estão aumentando rapidamente, até mesmo historicamente. Por exemplo, recentemente, na província de Kunar, uma jovem foi brutalmente espancada por seu marido em um caso de violência doméstica. Ela fugiu de casa e foi ao gabinete do Ministério da Mulher. O Ministério da Mulher entregou-a ao chefe do Conselho Provincial, que é um senhor da guerra brutal e infame. Ele estuprou a mulher duas vezes. Quando um advogado local corajoso tentou lutar por sua causa, recebeu ameaças de morte desse senhor da guerra. E esse é apenas um exemplo entre milhares.
Além disso, 68 membros do Parlamento são mulheres, mais do que até mesmo o Congresso dos EUA, mas a maioria deles são apenas simbólicas e têm ligações com os senhores da guerra, para que eles não representam as mulheres afegãs. Crimes contra mulheres estão a aumentar e há dezenas de casos de auto-imolação cada mês, e é por causa deste regime misógino que não oferece proteção para as mulheres.
HIR: Então, por que você acha que os Estados Unidos, como você diz, adotaram uma política de apoio aos senhores da guerra fundamentalistas, desde 2001?MJ: É um segredo aberto hoje, que os EUA são padrinhos do fundamentalismo islamita na região. Todos os grupos fundamentalistas terroristas da
Al-Qaeda, os talibans e os nossos chefes militares da Aliança do Norte foram criados, financiados e alimentados pela CIA durante a Guerra Fria. O cinturão verde do conceito de extremismo e de
jihad, que foi financiado e executado pela CIA através do ISI do Paquistão, causou todos os problemas atuais, e os EUA ainda precisa desses grupos para avançar sua agenda de guerra de longo prazo na região.
Os EUA já investiram bilhões de dólares neles nas últimas décadas. Através deles, os EUA e seus aliados ocuparam meu país. Através deles, mantêm o Afeganistão sem lei e sem segurança para a mídia, como parte de sua estratégia para justificar sua presença de longa-data. Através deles, transformaram o Afeganistão na capital mundial do ópio, que era uma das alegações para a ocupação do Afeganistão.
Através desses grupos medievais, os EUA e seus aliados continuam reprimindo grupos e indivíduos de espírito democrático em meu país, que são consideradas perigosas para os interesses, porque, ao contrário dos fundamentalistas, querem o fim da ocupação e lutar por um Afeganistão independente, livre e democrático. Enquanto os senhores da guerra são os mais odiados na sociedade afegã, os grupos progressistas têm mais condições de usar a insatisfação geral da população afegã, mobilizando-a a um movimento popular.
Ao contrário dos grupos de espírito democrático, os fundamentalistas estão dispostos a sacrificar nossos interesses nacionais para servir aos interesses de países estrangeiros, pois o dinheiro vai aos seus bolsos. Dia-a-dia, as forças EUA / OTAN estão expandindo suas bases militares no Afeganistão. Através dos senhores da guerra afegãos, os EUA exportam o fundamentalismo também às repúblicas da Ásia Central.
HIR: Será que o Afeganistão estaria melhor, na sua opinião, se os EUA não o tivessem invadido?MJ: Acho que a ocupação triplicou nossos problemas e misérias. Após dez anos de guerra, destruição e matança de dezenas de milhares de pessoas inocentes, estamos no mesmo lugar que estávamos em 2001. Em 2001, os afegãos tiveram que enfrentar um inimigo maior, o Taliban, mas hoje temos que lutar contra os senhores da guerra, o Taliban, as forças de ocupação e a máfia da droga. A longo prazo, especialmente o último destes torna o nosso futuro desanimador.
Hoje, não só os EUA e seus mais de 40 aliados têm livre trânsito no Afeganistão, mas também os países vizinhos como Paquistão e Irã têm suas mãos cheias de sangue nos assuntos internos do Afeganistão, e continuam enviando armas, dinheiro e apoio aos grupos brutais e criminosos.
Meu povo é esmagado entre três inimigos: a ocupação, o Taliban e os senhores da guerra. É verdade que o nosso povo está ferido e cansado de todas as guerras, e o que é um ponto pacífico - eles odeiam esses dois inimigos internos. Enquanto isso, meu povo está dizendo à ocupação, "Pare com as ações equivocadas. Nós não esperamos nada de bom vem de vocês". É evidente que eles têm ocupado o meu país; temos uma história de ocupação. Se os EUA e seus aliados não saírem do Afeganistão, tenho certeza que, com o passar do tempo, eles vão enfrentar a resistência do meu povo.
Não há dúvida de que queremos que as tropas saiam do Afeganistão, mas, enquanto isso, estamos pedindo solidariedade, a ajuda das pessoas amantes da justiça nos EUA, das pessoas amantes da paz ao redor do mundo, das organizações de direitos humanos,e demuitos outras organizações ao redor do mundo. Embora o governo dos EUA e outros governos ocidentais imponham a guerra e nossa destruição, estamos muito felizes e orgulhosos porque o povo desses países, seus intelectuais, partidos e organizações que se solidarizam à nossa causa. Precisamos da solidariedade e apoio deles. Precisamos do seu apoio educacional, porque a educação é a chave para a resistência à ocupação e à ignorância.
HIR: Você disse, em sua palestra ontem, que a única diferença entre as forças dos EUA e o Taliban é que as forças dos EUA mataram sob bandeira dos direitos humanos, direitos das mulheres e da democracia. O que você acha, então, do compromisso do presidente Obama de financiar iniciativas humanitárias no Afeganistão? Será que não levaram mais esperança ao país?MJ: Não há dúvida de que precisamos desse tipo de ajuda ao invés de ocupação militar. Mas, infelizmente, sob as belas bandeiras da democracia, dos direitos das mulheres e direitos humanos, os EUA apoiam os misóginos senhores da guerra. Esses senhores da guerra e os talibans são cópias de carbono de si. Aparentemente, os EUA e outros países ocidentais deram mais de 62 bilhões de dólares nos dez anos últimos para a reconstrução do Afeganistão, mas devido a um nível terrível de corrupção no governo afegão, nas ONGs nacionais e internacionais, e mesmo na ONU e nos escritórios nos EUA, uma parte muito pequena dos fundos realmente chegam às pessoas carentes. O Afeganistão é o segundo país mais corrupto do mundo, e os estrangeiros estão igualmente envolvidos nela. Grande parte dos fundo voltam aos países doadores. Até a mídia dos EUA expôs algumas pequenas partes da corrupção, e saques atuais no Afeganistão. Do presidente Hamid Karzai a seus ministros e outros funcionários e seus familiares, todos estão envolvidos na pilhagem e na corrupção. Devido a essa corrupção, centenas de milhões de dólares acabam nas mãos dos criminosos talibans, usados para matar nosso povo inocente.
O governo dos EUA impôs ao meu povo uma caricatura de democracia, com as mãos sujas de sangue. É por isso que hoje, o Afeganistão é um inferno. Quando Obama tomou posse, infelizmente, a primeira notícia ao meu povo foi mais conflito porque ele aumentou o nível de tropas, o que trouxe mais massacres, mais violência, mais miséria e mais tragédias. E agora, a administração Obama tem invadido a Líbia sob a mesma bandeira dos direitos humanos. Porque, para meu povo, Obama é tão perigoso quanto Bush. Ele provou ser um fomentador da guerra por seu apoio a seus caudilhos. Através deles, os ocupantes têm levado meu país a um período de trevas.
HIR: Na luta pela democracia no Afeganistão, que desafios se colocam perante ao país conservador, de cultura islamita?MJ: Os afegãos não têm nenhum problema com a democracia. Nosso povo experimentou todos os grupos fundamentalistas islamitas e testemunhou suas brutalidades, saques, a escravidão perante países estrangeiros, e a ignorância. Esses grupos perderam completamente suas bases entre as pessoas, e ideais democráticas têm muita chance de ganhar terreno. Mas nos últimos anos, os EUA e seus aliados deram exemplo muito ruim de democracia entre os afegãos comuns. Cometem todos os seus erros em nome da democracia, e algumas pessoas dizem que se isso é democracia, não queremos isso! Democracia sem juízes não tem sentido, não há justiça para o nosso povo hoje. O povo afegão clama às pessoas ao redor do mundo que apoie seus direitos contra um governo não-democrático e misógino. Estamos muito orgulhosos de alguns aspectos muito positivos da nossa cultura. Nosso problema não é com o Islã, e sim com o Islã reivindicado por Bin Laden, Mulá Omer e pelos misóginos senhores da guerra, que abusam do Islã a fim de usá-lo como uma arma para aclcançar seus objetivos malignos.
CHOMSKY E JOYA DISCUTEM POLÍTICA DOS EUA NO AFEGANISTÃO
The Harvard Crimson, Boston, 28.3.2011
Tradução de Edu MontesantiEm evento na Universidade Harvard, Malalaï Joya, a ativista aplaudida pelos afegãos, que recebeu visto após o Departamento de Estado tê-lo rejeitado semana passada, afirmou inequivocamente que a ocupação dos EUA no Afeganistão tem prejudicado a vida da maioria dos afegãos muito mais do que ajudado.
Joya falou ao lado do professor do
Massachusetts Institute of Technology, Noam Chomsky, que também alertou contra os perigos, muitas vezes negligenciados em relação à ocupação dos EUA no Afeganistão.
"Os Estados Unidos invadiram meu país sob a bandeira dos direitos das mulheres, direitos humanos e democracia, mas hoje estamos tão longe desses objetivos como estávamos em 2001", disse Joya. "Eles mantêm a situação sem lei e insegura a fim de ter uma desculpa para ficar no Afeganistão, e alcançar seus próprios interesses".
Embora o governo dos EUA, há muito, denuncie o Taleban como principal inimigo no Afeganistão, Joya afirmou que, para o povo afegão, os Estados Unidos são uma força tão destrutiva quanto o Taliban.
"O povo afegão está esmagado entre três inimigos: os talibans, os senhores da guerra e as forças de ocupação", disse Joya.
As observações de Chomsky também foram críticas em relação às ações dos EUA no Afeganistão, dizendo que o consenso geral entre os acadêmicos é de que a guerra é "militarmente invencível", e que os EUA devem chegar a um acordo político interno com Afghani e com os atores regionais, para levar paz à região. Chomsky disse que a interferência dos EUA no Afeganistão tem o potencial de desestabilizar o governo do Paquistão, país com mais rápido crescimento do arsenal nuclear do mundo.
Abordando recentes especulações se a negação de visto a Joya semana passada foi um erro cometido por um funcionário do Departamento de Estado, ou uma decisão excludente baseada em seu ponto de vista político, Joya disse acreditar que o governo dos EUA estava tentando impedi-la de expressar suas opiniões.
"A razão pela qual eles se recusaram a me dar visto, eu acho, é porque expus as políticas erradas do seu governo, e eu falo sobre a realidade da chamada "Guerra ao Terror", e falo sobre os crimes de guerra o quegseu Governo está cometendo em nome do povo norteamericano", afirmou Joya. "Essas são as razões pelas quais eles têm medo de mim, e não me deixam entrar os EUA".
Apesar da recusa inicial ao visto, e a cinco tentativas de assassinato que Joya tem sobrevivido, ela prometeu continuar falando contra as injustiças que, acredita, estão sendo cometidas em seu país.
"Quero dizer-lhe que ninguém pode me impedir de dizer a verdade", disse Joya.
Aqueles que compareceram ao evento, disseram ter gostado de ouvir as perspectivas que diferem tão radicalmente do que geralmente se apresenta na mídia dos EUA.
"Há tanta propaganda e tanta ação sob disfarce de democracia e liberdade, de maneira que, atualmente, ter um cidadão afegão sendo capaz de dar sua perspectiva, é muito produtivo", disse Sophie Vener, participante do evento.
MALALAÏ JOYA, CRÍTICA DA GUERRA NO AFEGANISTÃO, CONSEGUE VISTO DE ENTRADA AOS EUA
San Francisco Gate, 25.3.2011
Tradução de Edu MontesantiUma proeminente feminista, crítica da guerra do Afeganistão, obteve visto de entrada aos Estados Unidos quinta-feira - pela mesma agência do Departamento de Estado que o havia negado semana passada - e iniciou tardiamente para uma turnê que está programada para encerrar em San Francisco.
O caso de Malalaï Joya é o último entre vários em que a administração Obama, após recusa inicial, permite a visita de um estrangeiro que critica as políticas dos Estados Unidos ou de seus aliados.
A administração "não se envolve em prática de exclusão ideológica", disse o assessor jurídico do Departamento de Estado, Harold Koh, em dezembro através de carta à
American Civil Liberties Union (ACLU), que apoiou Joya e outros, cujas visitas foram negadas. O advogado da ACLU, Jameel Jaffer, disse que a administração, em grande parte, foi fiel ao seu comrpomisso.
A administração do presidente George W. Bush "usava repetidamente as leis de imigração como forma de censurar o debate acadêmico e político dentro dos Estados Unidos", disse Jaffer. "Certamente, foi uma mudança muito positiva nestas questões".
Hollman Morris, jornalista colombiano e crítico do governo de seu país apoiado pelos EUA, foi admitido para um programa acadêmico no verão passado, após os funcionários consulares, inicialmente, terem negado-lhe visto. Omar Barghouti, ativista palestino e defensor de um boicote econômico a Israel, recebeu visto sexta-feira, após uma campanha de apoio chefiada pela
Jewish Voice for Peace (Voz Judaica para a Paz), em Oakland.
Joya, 32, foi eleita para o parlamento do Afeganistão em 2005. Em uma conflituosa reunião de 2006, acabou suspensa, agredida e ameaçada de morte após apontar os outros membros como senhores da guerra e criminosos. Ela também denunciou a guerra liderada pelos EUA em seu país.
Joya fora aprovada a quatro visitas anteriores aos Estados Unidos, e na última vez falou na
Bay Area, em outubro de 2009. Preparando-se para um período de três semanas de turnê nos EUA, para promover seu livro "Uma Mulher entre os Senhores da Guerra", solicitara visto em um consulado dos EUA a 16 de março, e foi recusada.
O funcionário consular disse que ela era inelegível, porque estava desempregada e "vivia escondida" [
jurada de morte pelos senhores da guerra e talibans], o que fazia com que ela, desde seu país, não tivesse meios de ser apoiada para a viagem, e deste modo não poderia voltar a sua terra natal, disse o co-autor de Joya, Derrick O'Keefe, que falou com ela depois do incidente. Quando ela tentou explicar sua situação, disse ele, disseram-lhe que "eles sabiam exatamente quem era ela, e que ela não estava entenendo".
Apoiantes levantaram uma campanha de protesto que incluiu cartas da ACLU, de grupos de escritores e acadêmicos, além de nove membros do Congresso e uma enxurrada de telefonemas ao Departamento de Estado, nesta quarta-feira.
Na quinta-feira, os funcionários consulares permitiram que Joya fizesse novo requerimento, sem o período normal de espera, questionaram-na, e ela foi aprovada, disse Sonali Kolhatkar, co-diretora da
Afghan Women's Mission (Missão das Mulheres Afegãs) em Pasadena, quem organizou o apoio.
O Departamento de Estado disse que a recusa inicial a Joya não tinha nada a ver com suas opiniões, mas não deu mais detalhes do porquê. O porta-voz do Departamento de Mark Toner também se recusou a explicar mudança de quinta-feira, dizendo que os processos de visto são confidenciais.
Joya perdeu suas duas primeiras estadas programadas para Nova York e Washington, em vez disso aparecendo em vídeo. Ela tem conversa agendada na Igreja Episcopal São João Evangelista em São Francisco, dia 9 de abril, seguido de presença em um comício antiguerra na mesma cidade, no dia seguinte.
POR QUE OS EUA TEMEM MALALAÏ JOYA?
Khury Petersen-Smith escreve sobre Malalaï Joya, e seu esforço para poder falar
Socialist Worker, 23.3.2011Tradução de Edu MontesantiA ativista pelos direitos da mulher e ex-membro do parlamento do Afeganistão, Malalaï Joya, não tem medo. Ela parou no vazio para levantar sua voz contra os duplos inimigos da liberdade e da igualdade das mulheres em seu país: a misoginia dos senhores da guerra do Afeganistão, e a brutal ocupação dos EUA/OTAN.
Ela foi suspensa do Parlamento afegão depois de usar o cargo para defender os direitos das mulheres. A vida de Joya está ameaçada por causa do seu trabalho, e já sobreviveu a cinco tentativas de assassinato.
Mas agora que Joya está agendada para falar sobre a situação do Afeganistão, e apelar pela retirada das forças dos EUA e da OTAN de seu país em turnê de palestras em todos os EUA, mas só há uma coisa que pode impedi-la. Não são os senhores da guerra afegãos, os talibans nem o governo de Hamid Karzai: é a administração de Obama.
O visto de entrada de Joya aos EUA foi negado em 15 de março, uma semana antes do início de sua turnê. Funcionários da Embaixada dos EUA afirmam que recusaram o visto a Joya, porque ela está "desempregada" e vive "escondida".
Que qualquer ex-parlamentar seja tratado com desrespeito, é de se admirar. Mas há uma injustiça especial na aplicação de tais rótulos contra Joya. Joya é uma renomada autora, cuja editora,
Simon and Schuster, está envolvida na turnê como meio de promover seu livro. Em outras palavras, Joya não está desempregada.
Além disso, "o motivo por que Joya vive escondida, é que enfrenta constante ameaça de morte por ter tido a coragem de falar dos direitos das mulheres", disse Sonali Kolhatkar, da
Afghan Women's Mission (Missão das Mulheres Afegãs), organização sediada nos EUA que recebeu Joya para falar em outras turnês, e é patrocinadora da turnê deste ano. "É imoral que o governo dos EUA neguem sua entrada".
A negação de visto para a Malalaï Joya é usada para impedir que suas opiniões sejam ouvidas. Seu caso é o que a
American Civil Liberties Union chama de "exclusão ideológica", a prevenção de que perspectivas críticas ao governo dos EUA alcancem o público local.
A hipocrisia da administração Obama, supostamente socialdemocrata, de tomar medidas draconianas impedindo que uma ativista dos direitos das mulheres do Afeganistão expresse opinião sobre a situação das mulheres em seu país hoje, não passa desapercebida para muitos observadores.
"Eu entendo porque os governantes afegãos - tanto os talibans quanto os líderes do governo Karzai - têm medo de Malalaï Joya", escreveu a blogueira do
Boston Globe, Carol Rose, em 20 de marco no editorial. "Ela é uma corajosa defensora dos direitos humanos, e tem sido crítica de ambos os lados, na guerra civil. Ela organizou e dirigiu escolas secreta a fim de educar e capacitar meninas... Mas por que a secretária de Estado Clinton, que se diz defensora dos direitos das mulheres, se recusa a deixar Joya conhecer e conversar com os norteamericanos?".
Infelizmente, Joya não é a única voz que a administração Obama tenta calar. "Em menos de um ano, vimos cada vez mais o tratamento desumano a Bradley Manning, que Obama considerou "justo", ressalta Sarah Macareg da editora esquerdista
Haymarket Books, uma das patrocinadoras da turnê de Joya.
Macareg refere-se ao soldado do Exército dos EUA, acusado do vazamento de documentos sigilosos à organização popular
WikiLeaks.
"O FBI ataca casas e envia intimações para ativistas de solidariedade à Palestina, e três casos de atrasos inexplicáveis de vistos, para os fotojornalistas palestinos, Mohammed Omer e Omar Barghouti, e agora para Malalaï Joya. É difícil não ver tudo isso de forma cumulativa, como uma política de tentar silenciar essas vozes e, assim, algumas das nossas mais importantes formas de solidariedade e de oposição", disse Macareg.
Em outras palavras, o governo está fechando o cerco sobre quem desafia o que os EUA estão fazendo no exterior - especialmente aqueles com experiência de primeiramão sobre os crimes dos EUA. O silenciamento da dissidência é uma herança dos anos Bush, e em alguns casos está pior.
Como Anthony Arnove, um editor de
Haymarket, ressalta, "Joya pôde viajar aos EUA e falou aqui com o presidente Bush, mas agora enfrenta a exclusão ideológica sob a presidência de Obama, que fez campanha por mudança das políticas da era Bush, que antagonizaram o mundo".
Uma semana depois que o visto a Malalaï Joya foi negado, a revista alemã
Der Spiegel publicou condenável e novas perturbadoras provas de crimes de guerra dos EUA no Afeganistão. A revista divulgou fotos de um "esquadrão da morte", da 5 ª Brigada Stryker, 2 ª Divisão de Infantaria, posando com os corpos de afegãos que haviam matado.
Nas fotos, os soldados se divertem com os assassinatos. Eles enfrentam a corte marcial, não apenas por profanar civis afegãos nas mortes, mas também por simular situações de combate para justificar suas ações. Um soldado da unidade expôs os crimes.
Um porta-voz do Exército qualificou as ações dos soldadosde de "repugnante para nós enquanto seres humanos, e contrárias às normas e valores do Exército dos Estados Unidos". Mas, longe de ser aberrações, o assassinato de civis e a tortura de pessoas em todo o mundo estão em absoluta consonância com as "normas do Exército dos Estados Unidos".
As revelações
Der Spiegel são as mais recentes de uma série de revelações dos crimes de guerra ao longo da "Guerra ao Terror". Estas incluem as fotos públicas do pessoal dos EUA torturando iraquianos na prisão de Abu Ghraib, e as recentes ondas de revelações
WikiLeaks.
Essa realidade - cujos crimes contra a humanidade são parte do cotidiano das práticas imperialistas norteamericanas - é exatamente o que o governo dos EUA tem medo que seus cidadãos fiquem sabendo.
Esse é o caso especial da administração de Obama exatamente agora, que intensifica sua guerra, junto com a OTAN, no Afeganistão, que mantém uma forte presença militar no Iraque apesar de sua retórica de retirada, que bombardeia a Líbia em nome de intervenção humanitária, e concede a ditaduras, apoiadas pelos EUA como Bahrein, luz verde para reprimir manifestantes a fim de esmagar o espírito da revolução que sacode o Oriente Médio e o norte da África. Mas não importa quantos vistos neguem, a administração não pode calar a verdade, nem Malalaï Joya. Joya está falando para o público norteamericano em eventos organizados através de comunicação de vídeo via Internet. Há um público crescente de pessoas que quer ouvir suas idéias e discutir como acabar com as aventuras imperiais dos EUA no exterior, e essas são discussões urgentes que precisamos desenvolver neste país.
ATUALIZAÇÃO: Após uma campanha de protesto, mobilizada nos EUA e no exterior, foi finalmente concedido visto a Malalaï Joya, para viajar aos EUA, após atraso de uma semana. Ela chega hoje ao país.
GOVERNO DOS EUA NEGA VISTO PARA ATIVISTA
DOS DIREITOS DAS MULHERES AFEGÃS E ESCRITORA MALALAÏ JOYA
Publicado em Afghan Women`s Mission, 17.3.2011Tradução de Edu MontesantiOs Estados Unidos negaram visto de entrada para Malalaï Joya, respeitada ativista dos direitos da mulheres e ex-membro do parlamento do Afeganistão. Joya, nomeada uma das 100 pessoas mais influentes do mundo pela revista Time em 2010, preparava-se para iniciar um período de três semanas de turnê pelos EUA, a fim de promover uma edição atualizada do seu livro de memórias,
Uma Mulher entre Caudilhos, publicado pela
Scribner, uma marca da
Simon & Schuster.
O publicante de Joya na
Scribner, Alexis Gargagliano, disse: "Tivemos o privilégio de publicar Joya, e sua última turnê do livro em 2009, recebeu aclamação. O direito dos autores de viajar e promover seu trabalho. é fundamental à liberdade de expressão e ao intercâmbio de idéias. "Memórias de Joya foi traduzido para mais de uma dúzia de idiomas, e ela viajou bastante, inclusive à Austrália, Reino Unido, Canadá, Noruega, Alemanha, Itália, Espanha, Portugal, França e Países Baixos, em apoio ao livro nos últimos dois anos.
Colegas de Joya afirmam que, quando ela se apresentou, conforme agendado na embaixada dos EUA, foi informada de que estava sendo negado o visto porque ela estava "desempregada" e "vivia escondida". Com 27 anos, Joya foi a mulher mais jovem eleita ao parlamento do Afeganistão, em 2005. Por causa de sua dura crítica aos senhores da guerra e aos fundamentalistas no Afeganistão, tem sido alvo de pelo menos cinco tentativas de assassinato. "A razão de Joya viver escondida, é que enfrenta constante ameaça de morte por ter tido a coragem de falar dos direitos das mulheres - é obsceno que o governo dos EUA negue sua entrada no país", disse Sonali Kolhatkar, da Missão das Mulheres Afegãs, organização radicada nos EUA que já recebeu Joya para falar em turnês, e é patrocinadora da turnê nacional deste ano.
Joya também se tornou crítica de renome internacional da guerra dos EUA-OTAN no Afeganistão. Os organizadores afirmam que a negação do visto de Joya parece ser um caso em que a União de Liberdades Civis Norteamericanas (American Civil Liberties Union) descreve como "ideologia de exclusão", o que eles dizem que viola a "Primeira Emenda" norteamericana de ouvir discurso constitucionalmente protegidos, negando a estudiosos estrangeiros, artistas, políticos e outros, a entrada nos Estados Unidos.
Eventos com Malalai Joya estão previstos para ter início em 20 de março, até 10 de abril em Nova York, Nova Jersey, Washington DC, Maryland, Massachusetts, Vermont, New Hampshire, Pensilvânia, Illinois, Minnesota, Oregon, Washington e Califórnia. Os organizadores da turnê estão encorajando as pessoas a contactar o Departamento de Estado, para pedir-lhes que cumpram a promessa por parte da administração Obama de "promover o mercado global de idéias", e conceder o visto a Joya imediatamente.
www.edumontesanti.skyrock.com
quem poderia ter lhe contado?