Greenhalgh e os Diplomatas
5.8.2011 / Fonte: A PúblicaDentre os cerca de 3 mil documentos referentes ao Brasil publicados pelo WikiLeaks há muitos que não receberam a atenção devida, mas são importantes para compreender a visão americana sobre o país na última década.
É o caso de três documentos que narram encontros de membros do corpo diplomático americano com Luiz Eduardo Greenhalgh, que já foi deputado federal, vice-presidente da secretaria de relações internacionais do PT e vice-prefeito de São Paulo.
Greenhalgh teria recebido três representantes do consulado em São Paulo para um café da manhã em seu apartamento em abril de 2006 e mantido pelo menos mais um encontro em 2007, no qual foi visto pelos diplomatas como um “informante”, tradução livre para o termo “insider”, em inglês.
Procurado pela Pública, Greenhalgh, hoje de volta a seu escritório de advocacia, negou ter mantido reuniões com oficiais políticos do Consulado dos EUA em São Paulo “nem em 2007 nem em qualquer tempo” – e acusou o WikiLeaks de “propagar fofocas”: “Sempre que estive nas cercanias do Consulado ou da Embaixada dos Estados Unidos foi para participar de atos de protestos”.
Primeiro encontro
Um
documento enviado a Washington em 28 de abril de 2006 narra um café da manhã no seu apartamento, no centro de São Paulo. O encontro, feito a seu convite, teria durado 90 minutos e contado com a presença da sua sócia, a freira católica americana e também advogada Michael Mary Nolan, além da sua assistente política Miraci Astun.
Greenhalgh estava, segundo o documento, “relaxado e falante”, tendo rememorado episódios da ditadura – o que o então cônsul-geral Christopher MacMullen classificou de “histórias de guerra”.
De acordo com o relatório, ao ser inquirido sobre mecanismos de financiamento de campanha, Greenhalgh respondeu que, na sua última candidatura para deputado, ele havia declarado formalmente despesas de R$ 600 mil.
Segundo o relato, ele teria dito então que muitos empresários estavam relutantes em aparecer nas listas de contribuições e faziam doações em espécie ou em serviços como transporte e impressão de flyers.
“Greenhalgh estima que suas verdadeiras despesas com campanha fossem próximas a R$ 720 mil. Quando ele declarou os R$ 600 mil, segundo disse, as pessoas comentaram como a quantia era alta, mas isso durou apenas um dia ou dois. E fazendo uma declaração assim plausível, ele se imunizou contra acusações de irregularidades no financiamento de campanha”, prossegue o relatório.
Ao Tribunal Superior Eleitoral, Greenhalg declarou valores que não condizem com o relato do consulado americano. Na campanha eleitoral de 2002, afirmou ter utilizado R$ 215.161,00. Na de 2006, que foi concluída após o encontro em questão, declarou ter gasto R$ 865.363,00.
No mesmo encontro, ele teria dito que “todo mundo pratica caixa dois” mas haveria “maneiras éticas e não éticas de fazer isso”. Por exemplo, alguns candidatos teriam declarado gastos de R$ 150 mil – o que “não daria para eleger nem um vereador em Itagui” – quando arrecadaram três vezes este valor.
O texto diz ainda que Greenhalgh avaliava que a reeleição de Lula não estava garantida “de jeito nenhum”. Lula estaria decidido a fazer a elite “o engolir” – e haveria um sentimento mútuo de ódio. Para o advogado nem Lula nem o seu governo tinham novos programas ou ideias – ambos estariam paralisados desde o escândalo do mensalão.
Greenhalgh também via Lula cada vez mais isolado, já que muitos dos antigos amigos do partido haviam saído do governo. Por isso, o ex-presidente estaria se tornando “cativo da República do Rio Grande do Sul”, liderada por Dilma Rousseff e Tarso Genro, segundo o documento.
A conversa também chegou ao caso de Celso Daniel, prefeito petista de Santo André assassinado em 2002. Tanto Greenhalgh quanto Nolan afirmaram que se tratava de um crime comum e que a cobertura da imprensa estava errada. Para Greenhalgh, os seqüestradores entraram em pânico ao descobrir que se tratava de um “VIP”.
MacMullan descreve Greenhalgh como um político sério, mas que “não é admirado universalmente”, relembrando acusações de corrupção durante seu mandato com vice-prefeito de Luiza Erundina e de tentar encobrir a morte de Celso Daniel. “Dito isso, suas observações sobre os problemas do partido e de Lula são especialmente penetrantes e relevantes”.
Segundo o documento, Greenhalgh falou também do MST, a quem seu escritório representava na época. Ele disse que costumava evitar críticas ao movimento, mas mudou de postura depois da ocupação de propriedade da Aracruz celulose em março de 2006, que causou danos estimados em cerca de 400 mil dólares à companhia.
Na época, o advogado criticou o movimento através de uma declaração pública.
Segundo encontro
A missão americana no Brasil acompanha de perto das ações do MST, como mostrou uma
série de documentos publicados pelo WikiLeaks desde dezembro do ano passado.
No abril vermelho de 2007, por exemplo, a embaixada avaliou que houve “muito teatro e pouca substância”, com o uso de “retórica estridente mas pouca destruição de propriedade no ano passado”.
“Os líderes do MST tomaram uma decisão consciente de aumentar o tom dos seus ataques contra o presidente Lula, que era considerado, se não exatamente um deles, pelo menos um simpatizante e protetor do movimento”, avalia documento de 5 de maio daquele ano.
Nele, Greenhalgh é chamado de “informante”, tradução livre para “insider” e mencionado como uma fonte que deve ser protegida.
Segundo o relato, em reunião no dia 20 de abril com oficiais políticos do consulado de São Paulo, Greenhlagh afirmou que o MST estava sendo hipócrita ao manter um tom elogioso com o governo em privado em busca de apoio e financiamento, mas ao mesmo tempo confrontar o governo com retórica agressiva em público.
Citando de maneira indireta o conteúdo da conversa, o documento, também assinado por Christopher McMullen, hoje embaixador em Angola, diz que o ex-deputado teria participado de reuniões entre o MST e o governo Lula durante o primeiro ano de mandato, nas quais os dois lados teriam negociado um “modus vivendi”.
O governo teria, segundo a avaliação de Greenhalgh, mantido sua parte do acordo – garantindo financiamento a ONGs que apóiam ao MST, ou ao próprio movimento, além de realizar novos assentamentos – mas o movimento manteve uma postura de confronto e retórica agressiva.
Por isso Greenhalgh teria decidido se afastar do MST, fator que é citado como um dos motivos para a sua derrota na disputa para a reeleição à Câmara em 2006.
Além disso, segundo o documento, houve impacto no aumento da influência da ex-senadora e atual vereadora de Maceió Heloísa Helena e do partido PSOL sobre os sem-terra.
Procurado pela Pública, o ex-deputado disse que seu nome foi usado “indevidamente” pela comunicação diplomática para “dar mais peso à idéia da direita de criminalizar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra”.
“Sou um militante permanente no combate às tentativas de criminalização dos movimentos sociais. Portanto, o e-mail diz exatamente o contrário do que eu penso”, afirmou.
Terceiro documento
Um
terceiro documento, de 5 de junho de 2007, volta ao tema da derrota eleitoral de Greenhalgh, apontando outros fatores.
O documento não deixa claro se houve um novo encontro entre o pessoal do consulado e o ex-deputado, mas descreve que ele teria creditado sua derrota eleitoral também ao seu apoio à reforma da previdência, que desagradou aos aposentados, e ao escândalo do mensalão.
Diz o relato que Greenhalgh afirmou ter sido convidado a assumir o cargo de ministro na Secretaria Nacional de Direitos Humanos, mas não aceitou porque Paulo Vanucchi, que ocupava a pasta, não abriria mão de ficar pelo menos mais seis meses.
Mais uma vez, à Pública, Greenhalgh negou ter dito isso. “Apoiei o ministro Paulo Vanucchi abertamente, em todas suas propostas, especialmente, àquela de criar a Comissão da Memória e da Verdade”.
O documento continua com uma longa análise sobre o ex-presidente Lula. Greenhalgh diz que até a campanha de 2006, Lula sempre havia sido o “talento” ou a “estrela” do PT, tendo sempre alguém nas sombras que era o gerente, ou operador político – seja José Genoíno, José Dirceu ou Antônio Palocci.
Porém, ao ser forçado a praticamente coordenar a própria campanha, Lula teria começado a “dirigir a orquestra e ao mesmo tempo cantar no papel da ópera”. Enquanto Berzoini, de volta ao PT era visto como um líder fraco e aquiescente e Dilma Rousseff como mais técnica que política, Lula estaria fazendo seus próprios acordos políticos – e se distanciando do PT.
Segundo o documento, para Greenhlagh Lula estaria se distanciando do PT e pensando em apoiar um candidato não-petista em 2010.
Perguntado sobre um possível retorno de Lula em 2014, Greenhalgh explicou que a troca de Luiz Marinho por Carlos Lupi no Ministério do Trabalho, teria aproximado o ministério da Força Sindical, em detrimento da aliada histórica, CUT. Essa alienação da base aliada seria uma prova de que Lula não tinha planos para um futuro na política.
No comentário final sobre o encontro com Greenhalgh, MacMullen comenta que a sua avaliação parece acertada em muitos aspectos, mas que às vezes ele “dá a Lula mais crédito do que ele merece”. “A única grande iniciativa política que surgiu nos primeiros cinco meses do segundo mandato foi o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC)”.
À Pública, Greenhalgh afirmou: “em 2007, eu já não era deputado federal, já tinha retornado às minhas atividades como advogado, em São Paulo, e já tinha me afastado de reuniões políticas”. Clique aqui para ler a resposta na íntegra.
Todos os documentos da embaixada americana e consulados no Brasil foram publicados pelo WikiLeaks em 11 de julho, estando à disposição de pesquisadores, jornalistas e internautas no site www.wikileaks.org.
Wikileaks: Para Cônsul, Crise Econômica e Eleições
Ampliaram Influência de Sindicatos no Brasil
9.3.2011 / Fonte: Natália VianaNa análise da estrutura diplomática dos Estados Unidos no Brasil, os sindicatos viram sua influência crescer nos oito anos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva. A superação da crise econômica de 2008-2009 e a perspectiva das eleições presidenciais indicavam expansão dessa ascendência, ainda na visão dos estadunidenses em missão no país.
Em telegrama do quinto lote vazado pelo Wikileaks para blogues, Thomas White, cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, relata encontros entre Ron Kirk, representante comercial do governo Barack Obama, e membros de sindicatos e centrais sindicais. O documento é datado de 13 de outubro de 2009, pouco menos de um mês depois da
visita de Kirk ao país, em 16 de setembro.
Apesar dos atuais desafios econômicos globais e de uma rodada de greves recentes nos bancos, indústria automotiva e nos Correios, o sentimento expresso pelos sindicalistas no contato com Kirk e em reunião posterior (de follow-up) no consulado, demonstrou que, sob o governo Lula os sindicatos organizados tiveram sua voz sendo ouvida em questões sociais, políticas e econômicas. “À medida que o Brasil sai da crise econômica e move-se para eleições nacionais em 2010, os sindicatos terão maiores oportunidades para expandir sua influência”, diz o texto.
Quem participou da reunião, na ordem elencada pelo telegrama, foi
■ Ivan Gonzalez, coordenador político da
Confederação Sindical das Américas (CSA) – à qual são filiadas CUT, Força Sindical e UGT
■ Braz Agostinho Albertini, presidente da
Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado de São Paulo (Fetaesp)
■ João Carlos Goncalves, o Juruna, secretário geral da Força Sindical
■ Ortelio Palacio Cuesta, secretário de assuntos internacionais da Força Sindical
■ Lourenco Ferreira do Prado, vice-presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT)
■ Caninde Pegado, secretário Geral da UGT
■ Maria Silvia Portela de Castro, assessora internacional da CEntral Única dos Trabalhadores (CUT) – “Sole Center of Workers”, na tradução livre; e
■ Brian Finnegan, diretor para o Brasil do Centro de Solidariedade da AFL-CIO.
Protecionistas, mas limpinhos
A imagem não é fácil de ser imaginada, sindicalistas na mesma mesa com um representante comercial dos Estados Unidos. Sem nenhuma reivindicação nem qualquer belicosidade no ar. Mas é assim que é descrito o encontro.
Os sindicalistas no Brasil têm, na definição de White, “visões protecionistas/pró-política industrial”. No entanto, ainda segundo o cônsul, eles mostraram-se dispostos a encontrar e se envolver com o representante comercial – “um sinal que vemos como positivo”, relata White.
Na perspectiva da embaixada, o contato entre o membro do governo dos EUA e os sindicalistas foi quase toda positiva, com exceção de algumas demandas por saber mais sobre a política de Obama para a área comercial.
De olho na cana
A inclusão do representante da Fetaesp, um dos sindicatos relacionados a trabalhadores rurais do setor sucroalcooleiro, pode indicar interesse comercial dos Estados Unidos sobre a questão. As denúncias internacionais de superexploração dos boias-frias são motivo de preocupação dos usineiros, a ponto de a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Única) ter assinado um
protocolo com garantias de fim da intermediação de mão de obra.
O etanol produzido do milho é um concorrente internacional do obtido a partir da cana. O impacto social do cultivo da cana (além do dano relacionado às queimadas para permitir a entrada dos trabalhadores no corte) sempre aparece entre os
aspectos negativos do álcool combustível produzido no Brasil. Em
telegrama divulgado anteriormente, há menção à informalidade na contratação dos boias-frias.
No telegrama em questão, relata-se que Albertino considera que a forma preferida por empregadores para a remuneração, o pagamento por peso cortado – e não por hora trabalhada –, é um dos vilões. O texto cita leis estaduais e acordos entre usineiros comprometendo-se a mecanizar toda a produção até 2014 e a consequente onda desemprego de trabalhadores de baixa qualificação profissional.
“Expressando a frustração de alguns dos cortadores (de cana), ele (Albertino) reclamou: 'há mais leis regulando a proteção dos animais criados na pecuária do que dos cortadores de cana'”, completa o cônsul.
Parceria
No final da conversa, tanto Juruna quanto Silvia Portela teriam cogitado a possibilidade de a estrutura consular dos EUA oferecer, em algum tipo de parceria com os sindicatos ou com as centrais sindicais, cursos de inglês ou programas de intercâmbio para jovens em cursos profissionalizantes. Nenhuma resposta consta no documento. Mas mostra que o pessoal não perde tempo.
Argentina Alertou EUA sobre Programa Nuclear Brasileiro
10.2.2011 / Fonte: WikiLeaks.chAs presidentas do Brasil, Dilma Rousseff, e da Argentina, Cristina Kirchner, assinaram no final de janeiro um acordo para a construção de dois reatores nucleares de pesquisa - um em cada país. O acordo foi mais um sinal de que, neste assunto, os dois países compartilham muitas posições e interesses.
Mas a visão de que o Brasil é um aliado não é unânime dentro do governo argentino, de acordo com documento enviado pela embaixada americana em Buenos Aires a Washington em 24 de dezembro de 2009.
Na época, o diretor encarregado de não proliferação nuclear no Ministério do Exterior argentino tratou do programa nuclear brasileiro com representantes dos EUA, dizendo que a Argentina mantém “alerta amarelo” em relação aos projetos do sócio do Mercosul e que os brasileiros “escondem tecnologia, como centrífugas”, dos inspetores. Além disso, Gustavo Ainchil revelou que a Argentina tem um plano no caso do Brasil resolver desenvolver armas nucleares.
O documento faz parte de uma série de telegramas do WikiLeaks que revelam o que autoridades latino-americanas pensam sobre o Brasil. Os despachos foram consultados por esta repórter e o Opera Mundi vai publicá-los nos próximos dias.
Segundo o despacho da embaixada de Buenos Aires, a reunião dos representantes argentinos com o conselheiro político da embaixada, Alex Featherstone, sobre o programa nuclear brasileiro aconteceu no dia 10 de dezembro de 2009.
A iniciativa da reunião partiu dos americanos, depois que o embaixador argentino em Brasília procurou a embaixada dos EUA para reclamar do Brasil. Duas semanas antes, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad visitara o Brasil.
De acordo com o relatório da embaixada, estiveram na reunião Gustavo Ainchil, diretor da Direção de Segurança Internacional, Assuntos Nucleares e Espaciais do Ministério das Relações Exteriores (Digan), seu subdiretor Alberto Dojas e uma funcionária do ministério.
Para o Engenheiro Naval e Nuclear Leonam dos Santos Guimarães, que assessora a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), as preocupações de Gustavi Ainchil são uma postura isolada. “Se existissem 'apreensões da Argentina', elas deveriam estar sendo discutidas e resolvidas dentro dos canais de comunicação estabelecidos pelo Regime Regional de Salvaguardas em vigor nos dois países, foro adequado para isso”, diz ele.
Leonam avalia que as preocupações são infundadas, já que além do Brasil ter assinado o tratado de não-proliferação, a Constituição Federal veda quaisquer usos não pacíficos da energia nuclear em território nacional. “Dispositivo constitucional similar somente existe na Nova Zelândia”, diz ele. (leia a entrevista completa)
Já o físico José Goldemberg, ex-ministro e ex-secretario de Estado, especialista em energia, acredita a postura brasileira alimenta esse tipo de preocupação nos países vizinhos, ao não assinar o protocolo adicional do Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas. “A recusa da Argentina e do Brasil alimenta esse sentimento”, diz. “Ficamos numa posição próxima da posição do Irã”.
"Todo o time"
“A participação de todo o time do Digan reforça a impressão da embaixada de que os argentinos haviam decidido de antemão compartilhar uma mensagem de preocupação com o governo americano”, diz o despacho enviado ao Departamento de Estado.
O diretor da Digan começou dizendo que recentes atitudes do Brasil haviam “chamado a atenção” da Argentina. “A recepção do presidente iraniano Ahmadinejad foi especialmente preocupante para a Argentina, dadas as suas questões com o Irã”.
A decisão de abrir uma missão diplomática na Coréia de Norte e a recusa brasileira em assinar o protocolo adicional de não proliferação nuclear, que permite inspeções nucleares com curto aviso prévio e em instalações não declaradas ela AIEA, também seriam motivo de preocupação.
Em seguida, Ainchil disse ao representante americano que o Brasil “esconde certas tecnologias nucleares, como centrífugas” dos inspetores argentinos da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), um organismo binacional responsável por verificar o uso pacífico dos materiais nucleares.
Tais sinais são vistos pela Argentina como um “alerta amarelo”. Para os argentinos, o Brasil se equipara à Alemanha, ao Japão, e à Coreia do Sul, países que “poderiam desenvolver e detonar bombas nucleares em pouco tempo se quisessem”, mas que mantêm compromissos internacionais que os impedem de fazer isso.
Para não encostar o vizinho na parede, o que seria “contraprodutivo”, o governo argentino decidiu também não assinar o protocolo adicional, segundo Ainchil.
Navio quebra-gelo nuclear
O diretor do Digan reclamou ainda das recentes compras de armamentos pelo Brasil. Fez comparações com o Chile, que comprara armamentos, mas, ao mesmo, deu sinais positivos retirando as minas terrestres que mantinha na fronteira com a Argentina. Para Ainchil, de acordo com o documento, em relação ao Brasil, “é preciso contar com os acordos internacionais de não proliferação.”
Na conversa, o diretor da Digan teria afirmado que, caso o Brasil venha a desenvolver a bomba nuclear, a Argentina procuraria se posicionar fazendo avançar seus programas na área, mas com fins pacíficos. “A Argentina iria escolher um caminho de desenvolver e empregar tecnologia nuclear pacífica avançada para demonstrar capacidade, sem de fato desenvolver armas nucleares”, relata o despacho. Ele mencionou como um provável modo de mostrar esta capacidade a construção de um navio quebra-gelo nuclear.
Segundo o despacho, o governo argentino via com alívio a transição presidencial em 2011. Ainchil teria sugerido que, embora a Argentina mantivesse “respeito” pelo presidente Lula, “a popularidade sem precedentes de Lula e seu desapego de fim de mandato a considerações políticas haviam permitido assumir riscos na política externa e de defesa”.
Já o sucessor fugiria de medidas controversas, inclusive na relação com o Irã. Por isso, Ainchil sugeriu que os EUA procurassem os candidatos Dilma Rousseff e José Serra para conversar sobre a adesão brasileira ao protocolo adicional da AIEA.
Afinal, Quem São Esses Embaixadores?
Finalmente consegui fazer uma reportagem que queria há muito tempo: um perfil dos embaixadores que assinam os telegramas do WikiLeaks e de como funciona a diplomacia americana. Uma reportagem de fundo, mais que necessária para quem se interessa por ler os documentos. Fiz a reportagem em parceria com a excelente Marina Amaral. Abaixo, a íntegra do texto
por Natália Viana, 14.3.2011O Brasil do embaixador Clifford Sobel é o sonho de qualquer empresário americano. Se vai à Bahia é recebido por baianas em roupas típicas e termina o dia tomando champagne na casa de Nizan Guanaes. No Sergipe é condecorado com a ordem de Aperipê e deixa-se fotografar dançando e tocando pandeiro ao lado do governador Marcelo Déda. Coleciona histórias de pescarias no Pantanal e aventuras na Amazônia para contar nas rodas de negócios em Belo Horizonte. Sente-se “em casa” em São Paulo, “lembra Nova York”, onde o embaixador faz palestras e reuniões e janta no Fasano. A mulher, Barbara, “loves the Carnival”, passados em camarotes oficiais no Recife, Salvador e no “lindo Rio”, como diz Sobel à revista Caras. Nos 9 primeiros meses de Brasil, conta à revista, o casal visitou onze Estados brasileiros e abrilhantou tantas festas que o colunista Ancelmo Góis chegou a inventar uma expressão para se referir a eles: Party Rice, ou arroz de festa.
Na casa do embaixador em Brasília, que Clifford ocupou entre 2006 e 2009, os convidados se encantam com a elegância agradável das recepções e cerimônias, e Sobel marca jantares e reuniões sigilosas com as fontes cultivadas na animada vida social. O senador Heráclito Fortes (DEM-Piauí), por exemplo, estivera com ele no camarote do governador Sérgio Cabral, no Rio de Janeiro, durante o carnaval. Meses depois, tomou a iniciativa de lhe telefonar na manhã daquele 5 de novembro de 2007 para pedir uma reunião “urgente” sobre um assunto que ele “não podia discutir por telefone”.
Ao embaixador e seu assessor militar, o presidente da Comissão de Relações Internacionais e Defesa do Senado disse que havia uma conspiração entre Irã, Rússia e Venezuela para disseminar ideologia antiamericana e armar os governos e movimentos “populistas” da América do Sul em território brasileiro. E instou para que os Estados Unidos reagissem, sugerindo uma parceria com as indústrias de armas do Brasil e da Argentina para “não atrair publicidade ligando o governo americano ao incremento da venda de armas”.
Em novo encontro, este no dia 28 de março de 2008, o senador o alertou sobre uma guerrilha similar às Farc que estaria atuando em Rondônia, a Liga dos Camponeses Pobres (LCP), “com acesso à tecnologia russa ou iraniana”, e falou sobre uma insólita infiltração terrorista estrangeira através da ONG Cepac, ligada, segundo ele, a uma “facção trotskista do PT”, que estaria atuando no seu Estado, o Piauí.
“Fortes, mais do que a maioria, está prestando atenção ao que considera ameaças emergentes dentro e fora do Brasil. Suas preocupações sobre a LCP e a Cepac parecem válidas, com base nas informações de que ele dispõe, mas nós não temos informações suficientes para avaliar a acuidade e a seriedade da situação”, escreveu Sobel a Washington.
A frase vem de apenas um dos 250 mil documentos diplomáticos vazados pelo WikiLeaks. Quase 3 mil se referem ao Brasil – 63 despachos do departamento do Estado e 2919 telegramas enviados entre 2002 e 2010 (1947 provenientes da embaixada em Brasília e 909 dos consulados de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife). Entre esses documentos, apenas cerca de 1/5 são classificados – 468 são confidenciais e 73, secretos
Comentários picantes
Divertidos, absurdos, curiosos, e até sofisticados na visão de alguns especialistas, os telegramas constroem uma narrativa dos bastidores das relações bilaterais durante todo o governo Lula, do ponto de vista dos representantes americanos. Parte dos relatos de campo ou relatórios internos – como são chamados pelos diplomatas – surpreenderam pela superficialidade, baseados em fofocas, fontes duvidosas e análises acríticas do material publicado pela imprensa brasileira.
“Os americanos são informais, é o estilo deles, mas essa troca mais ou menos franca de informações faz parte do cotidiano diplomático de muitos países. O objetivo é transmitir as percepções do embaixador e de outros funcionários graduados aos que traçam a política externa em Washington”, explica o ex-ministro e ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos, Rubens Ricúpero.
Por isso, é difícil determinar o peso desses telegramas nas decisões tomadas pelo Departamento do Estado, Casa Branca e Senado, os órgãos que comandam oficialmente a política externa americana. Para alguns especialistas, o valor dos relatórios varia conforme a credibilidade e a influência do embaixador. Outros, como o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Mattar Nasser, defendem a tese de que os papéis têm “tão pouca importância quanto os embaixadores”.
“O Senado mantém seu poder na política externa, mas o Pentágono e o sistema de segurança nacional ocupam um espaço cada vez maior nas decisões. Agora, o Pentágono destina verbas para a reconstrução das nações e faz operações de ajuda humanitária, que encobrem ações militares. Tem verbas do Pentágono até para cuidar de Aids na África”, explica Nasser.
Já o pesquisador Robert Naiman, do instituto americano Just Foreign Policy, acredita que o papel dos embaixadores continua a ser “importantíssimo” para dizer a Washington “qual a verdade, qual a mentira sobre o que está acontecendo no país em que estão”. Mas, constata o pesquisador, nem sempre os relatórios são levados em conta, como mostram os documentos do WikiLeaks: “Um mês depois do golpe de 2009, em Honduras, o embaixador dos EUA, que é bastante experiente, escreveu um telegrama avaliando que o golpe fora absolutamente ilegal. O que se viu foi que a política adotada pelos EUA diferiu dramaticamente do que o embaixador disse”, afirma. Outro telegrama destacado pelo pesquisador pela “flagrante discrepância” com a política oficial foi enviado em maio de 2009, pela embaixadora do Paquistão Anne W. Patterson. Nele, Ann afirma que a estratégia americana de aumentar a ajuda econômica não vai deter a expansão do Talibã. “Esse conselho jamais foi implementado”, diz Naiman.
Não-diplomatas
Para os especialistas, o papel do embaixador perde seu peso porque dos governos americanos costumam oferecer a embaixada como um “presente” aos aliados políticos. No caso dos Estados Unidos, quase sempre esses aliados são importantes fundraisers (ou levantadores de fundos) das campanhas presidenciais. Entre os 370 embaixadores nomeados por Bush em 2006, 133 eram não-diplomatas, com parco conhecimento dos países para onde foram enviados.
“Eles (o governo americano) preferem alguém que possa pegar um telefone e ligar direto para a Casa Branca, é o sistema deles”, observa um alto diplomata do Itamaraty.
O cientista político americano Riordan Roett, autor do livro The New Brazil, lançado pela Brookings Institution Press, critica a atuação dos não-diplomatas: “Eles não levam tão a sério seu papel como profissionais. Washington sabe que vão ficar por 2 anos na carreira e depois vão embora. O que ganham é uma espécie de honraria, serem chamados de 'embaixador' por toda a vida. Então, são do tipo que vivem em festas e casas noturnas”, diz.
“Quarenta por cento só estão ali porque contribuíram para levantar fundos – 400 mil dólares compram um tíquete de embaixador, e os indicados políticos defendem sempre o que é melhor para o governo que os colocou lá”, completa a ex-embaixadora Ann Wright, que renunciou à carreira depois da invasão do Iraque para não ter que defender a política externa de seu país. Para a ex-diplomata, o pior é que esses embaixadores servem ao governo e não ao Estado. “Muitos não conhecem bem o país e estão apenas para implementar o que forem mandados”.
Ann, que deixou a carreira diplomática depois de 16 anos de serviço, afirma que a maioria são homens de negócios. “Seu principal objetivo é expandir seus interesses econômicos em países específicos. Muitos voltam aos países depois, porque já conheceram todo mundo – é muito benéfico financeiramente para eles”.
O amigo americano
Clifford Sobel, empresário experiente no setor financeiro e pioneiro em telefonia por internet é fundraiser do partido republicano. Ele e a mulher, Barbara, figuram entre os 241 Bush Pioneers em 2000, e entre os 221 Bush Rangers em 2004 – ou seja, levantaram pelo menos 100 mil dólares para a campanha presidencial de 2000 (pioneer), e acima de 200 mil dólares para a campanha de 2004 (ranger). A Family Sobel Foundation, dirigida por Barbara, também doou 81 mil dólares aos candidatos republicanos em 2004. Como pioneer, Sobel recebeu a embaixada da Holanda, onde ficou até 2005. Na categoria ranger em 2004, o prêmio foi Brasil, que além de “paraíso tropical”, é o segundo maior parceiro comercial dos Estados Unidos.
Quando chegou por aqui, em agosto de 2006, não sabia quase nada do país – nem entendia o português. Seus primeiros despachos mostram desconfiança a respeito de um suposto “populismo” do governo brasileiro e à sua política externa. Em 30 de outubro de 2006, comenta com ceticismo um encontro com a equipe de Lula após a reeleição: “Nossos interlocutores estavam com o espírito elevado, generosos com o mundo, incluindo os Estados Unidos. Mas sem uma mudança no alto escalão do Ministério das Relações Exteriores, ficamos em dúvida sobre a viabilidade de uma guinada das prioridades sul-sul do primeiro mandato de Lula em direção aos Estados Unidos e ao mundo desenvolvido”.
Sobel nunca conseguiu se entender muito bem com o Itamaraty, mas manteve contatos próximos com o ministro da Defesa Nelson Jobim, que considerava “o homem mais confiável do governo”, e o general Armando Félix, do gabinete de Segurança Institucional. Talvez por isso, um de seus relatórios mais “precisos”, na opinião do ex-embaixador Ricúpero seja o que avalia o Plano Nacional de Defesa do governo: “Amigos meus, que trabalham na área da defesa, disseram-me que esse telegrama foi altamente apreciado, com análise de grande competência e opiniões sensatas, apesar de terem se irritado com bobagens como chamar o submarino nuclear de 'baleia branca'”.
Mesmo assim, Sobel saiu sem conseguir convencer o “amigo” Jobim a optar pelos caças americanos na disputa com franceses e suecos. Também falhou na missão de levar o Brasil à Associação de Livre Comércio das Américas (Alca), mas foi mais bem-sucedido quando deixou de lado os negócios governamentais e se concentrou em “estreitar as relações entre as empresas brasileiras e americanas”, como registrou um perfil sobre ele publicado na revista Exame, em fevereiro de 2008, com o título: “O amigo americano”.
Isso porque, na embaixada, ele acompanhou de perto os dois setores que lhe pareciam os mais promissores do país: etanol e telecomunicações. Empenhou-se para fechar um acordo entre a Santelisa Vale (fusão das usinas Santa Elisa e Vale do Rosário e de mais três empresas paulistas) e a americana Dow Chemical, comparecendo em caráter oficial à cerimônia de assinatura de um acordo comercial, em julho de 2007, que previa a produção de 350 mil toneladas de polietileno com tecnologia da companhia americana (o negócio foi interrompido na crise econômica de 2009). Também se interessou pelo processo que levou ao fechamento do maior negócio de telecomunicações realizado no país desde as privatizações: a compra da Brasil Telecom pela Oi por 4,85 bilhões de reais, arquitetada pela Angra Partners, que representava os fundos de pensão na Brasil Telecom, e que também comandou o processo de fusão da Santelisa Vale.
Com a vitória de Barack Obama – o candidato republicano à presidência novamente havia recebido recursos do casal Sobel – ele deixou a embaixada. Em julho de 2009, depois de muitas festas de despedida, ele saiu oficialmente do cargo, mas continuou a aparecer em companhia de sua elegante Barbara nas colunas sociais. Em agosto de 2010, por exemplo, ela organizou mais uma vez o concorrido jantar de sua Associação Américas Amigas, no hotel Hyatt, em São Paulo, para arrecadar fundos para ONG que fundou, com o objetivo de doar mamógrafos. No final do ano passado, instalaram-se definitivamente no país e, sem muito alarde, Sobel associou-se à Angra Partners, um negócio pra lá de promissor. A empresa se nega a confirmar.
Mas, procurada por CartaCapital, Barbara desfez as dúvidas neste simpático e-mail: “Decidimos continuar morando no Brasil por causa de nossos fortes vínculos com a cultura e o povo brasileiro. O embaixador Sobel se tornou sócio de um private equity group chamado Angra Partners e eu continuo à frente da Associação Américas Amigas. Escolhemos comprar um apartamento em São Paulo porque é o principal centro de negócios do país, onde estão as sedes da Angra Partners e da Américas Amigas. Estamos aqui para ficar!”.
Dilma, assaltante
O embaixador que antecedeu Sobel, o empresário republicano John Danilovich, também teve final feliz depois de servir no Brasil. Danilovich é aquele que ficou famoso por ter afirmado, em um telegrama a Washington em 22 de junho de 2005, que a atual presidenta Dilma Rousseff havia organizado três assaltos a banco e cofundado a Vanguarda Armada Revolucionária de Palmares – um erro profissional que se tornou gafe internacional depois de vazado pelo WikiLeaks.
Empresário da marinha mercante, Danilovich mantém uma relação de longa data com a família Bush. Em Londres, onde cursou mestrado e viveu durante muitos anos, organizou o apoio republicano para a eleição de Bush, o pai. Foi nomeado, durante seu governo, para o Comitê Diretor do Canal do Panamá, e dirigiu a comissão que tratou da devolução do canal, em 1999. No ano seguinte, Danilovich, importante doador da campanha de George W. Bush, foi nomeado para embaixada da Costa Rica. Em 2004, substituiu a diplomata Donna Hrinak na embaixada brasileira, onde ficou até o final de 2005.
Durante sua rápida atuação no Brasil, empenhou-se em costurar uma aliança anti-Chávez no continente, a ponto de tentar convencer o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, a ajudar a espionar o vizinho, propondo “um acordo de compartilhamento de inteligência”, como revelou um telegrama de 15 de março de 2005. Amorim, é claro, respondeu com irritação: “Não vemos Chávez como uma ameaça”.
Danilovich não desistiu. Ao Estado de S. Paulo afirmou que Chávez estava financiando a campanha Evo Morales, então na oposição, à presidência da Bolívia. Um telegrama mostra que ele voltou à carga em reunião com o General Jorge Armando Félix, no dia 4 de maio de 2005. Disse que Chávez estava “prejudicando os esforços do Brasil em ter um papel de liderança política e econômica na América do Sul”. Félix respondeu que divergia da posição do governo, mas preferia seguir a linha oficial.
Um ano depois da segunda eleição de Bush, Danilovich deixou o Brasil para assumir a liderança de uma corporação tão milionária quanto nebulosa: tornou-se CEO da Millenium Challenge Corporation, agência “independente”, ligada e financiada pelo governo americano. No período em que esteve à sua frente, entre novembro de 2005 e janeiro de 2009, ele gerenciou 6,3 bilhões de dólares de fundos aprovados pelo Congresso Americano. A missão oficial da MCC, segundo seu site, é fornecer assistência econômica a países pobres que se comprometem a seguir a cartilha neoliberal: governar com justiça, manter uma política fiscal responsável, incentivar os negócios.
Em 2008, por exemplo, o MCC bloqueou ajuda para projetos da Nicarágua em retaliação a suspeitas de fraude eleitoral por parte do governo sandinista de Daniel Ortega. Mas, em 2009, a corporação continuou a mandar ajuda para Honduras, mesmo depois do golpe que tirou Manuel Zelaya do poder, em 28 de junho.
Profissionais do ramo
Menos constantes nos telegramas vazados pelo WikiLeaks, os dois diplomatas de carreira do período Lula destacaram-se pelos bons resultados em prol das relações bilaterais. Thomas Shannon, o atual embaixador, escolhido por Obama, teve forte atuação em favor do Brasil para superar a crise provocada pela aproximação com o Irã, nos últimos dois anos. Já a diplomata Donna Hrinak, que ficou no cargo entre 2002 e 2004, teve papel fundamental para aproximar os dois países em um momento em que o governo Bush acompanhava com apreensão a chegada do operário “vermelho” à presidência do Brasil.
Filha de um metalúrgico de Pittsburgh, Hrinak havia sido vice-cônsul em São Paulo na década de 1980, e acompanhou com entusiasmo as greves do ABC paulista sob a ditadura militar. Quando voltou ao país, em abril de 2002, era fluente em português e tinha quase 30 anos de serviço diplomático – foi embaixadora na Bolívia, na Venezuela e na República Dominicana. Na recepção, um jornalista perguntou o que ela achava de Lula: “Não temos medo de Lula. Ele encarna o sonho americano”.
Durante a campanha presidencial, a embaixadora reuniu-se com Lula e com o homem escolhido pelo PT para azeitar as relações com os americanos: José Dirceu, conhecido de Hrinak desde a década de 80. Enquanto Dirceu visitava a Casa Branca e o Senado americano, em julho de 2002, levando uma cópia traduzida da “Carta ao Povo Brasileiro”, ela enviava a Washington telegramas garantindo que, se o PT vencesse, não haveria calote na dívida externa.
As vésperas do segundo turno, Hrinak e o então embaixador brasileiro em Washington, Rubens Barbosa – instruído pelo próprio Fernando Henrique Cardoso – empenharam-se em articular uma ligação telefônica de Bush, caso Lula fosse eleito. Bush ligaria caso Serra ganhasse, mas uma ligação para Lula seria um forte sinal de apoio, declararia depois a diplomata. A ligação veio poucas horas depois do resultado. “Parabéns pela grande vitória... O senhor conduziu uma campanha fantástica”, dizia Bush ao telefone.
O primeiro e único telegrama de 2002 na série vazada pelo WikiLeaks relata a primeira visita oficial de um representante do governo americano ao Brasil depois da eleição de Lula. O subsecretário de estado americano Otto Reich descreve o encontro com José Dirceu, Antonio Palocci e Aloizio Mercadante como “caloroso e produtivo” e conta que Lula, “animado, elegante e descansado”, disse, logo de cara, que queria ter uma boa relação com Bush: “Acho que dois políticos como nós vamos nos entender quando nos encontrarmos frente a frente”. No final do encontro, Reich foi taxativo: “Nós não temos medo do PT e da sua agenda social”.
Donna havia ganhado a parada. Em dezembro daquele ano, o presidente americano receberia Lula na Casa Branca, antes mesmo da posse.
O cientista político Riordan Roett não tem dúvidas da importância pessoal da ex-embaixadora para costurar as relações bilaterais. “Ela era muito popular entre os políticos de Brasília, tinha acesso ao governo e à oposição, falava português e entendia a dinâmica brasileira”.
Ao se aposentar em 2004, Donna saiu do país com um namorado brasileiro, algumas plásticas no rosto e o bordão de que “o Brasil não é antiamericano” – que Shannon teria de repetir à exaustão cinco anos depois.
Itamaraty, o adversário
Nomeado por Obama em 28 de maio de 2009, Thomas Shannon só chegou ao país em janeiro de 2010 devido à oposição a seu nome no Senado. O republicano Charles Grassley, do estado produtor de etanol Yowa, atrasou a confirmação por Shannon defender o fim da tarifa de US$ 0,54 sobre o etanol brasileiro exportado pelos EUA.
Outros dois senadores republicanos o vetaram por sua atuação durante o golpe de Honduras. Como subsecretário do Departamento de Estado para o Hemisfério Ocidental entre 2005 e 2009, Shannon amargurou a derrota da diplomacia aos interesses comerciais de seu país. Enquanto o governo americano começou deplorando o golpe, acabou por aceitá-lo sob pressão do empresariado ligado à elite hondurenha. A opinião do próprio embaixador, como vimos, acabou sendo totalmente desconsiderada. Quando Manuel Zelaya voltou ao país e se hospedou na embaixada brasileira, Shannon se reuniu com a ministra do exterior do governo de facto, Patricia Rodas, para pedir o envio de comida e água, como registra um telegrama de 22 de setembro de 2009.
Diplomata de excelente reputação e experiente – atuou nas embaixadas da Venezuela, África do Sul, Camarões, Gabão, Guatemala e São Tomé e Príncipe, além de representar os Estados Unidos na OEA –, Thomas Shannon chegou ao país em plena crise provocada pela aproximação do governo Lula com o Irã, defendida pelo governo como parte de sua estratégia sul-sul e de defesa da equidade dos países diante do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Para complicar, Lula estava de visita marcada para o Irã em maio, e o presidente Mahmoud Ahmadinejad estivera no país quarenta dias antes da chegada do novo embaixador.
Segundo o pesquisador Riordan Roett, Brasil e Estados Unidos haviam chegado a um impasse por conta de um “desentendimento típico das relações diplomáticas”, causado por uma carta sobre o assunto enviada por Obama a Lula. O pesquisador, que atribui a informação a um ex-ministro de relações exteriores brasileiro, explica: “Enquanto o Brasil pensou que era um sinal positivo (para continuar as negociações com o Irã), o pessoal de Washington a via como uma advertência para que o Brasil fosse cuidadoso”. Segundo ele, “esse mal-entendido levou a uma série de erros que culminaram no conflito sobre as sanções na ONU”.
No dia 8 de janeiro de 2010, algumas horas depois de desembarcar no país, Shannon foi procurado por Celso Amorim, que quebrou o protocolo, e iniciou a conversa, lamentando a demora na aprovação de seu nome: os dois países haviam “perdido um tempo precioso”, disse-lhe o ministro brasileiro.
Os telegramas deixam transparecer o entusiasmo da equipe do Itamaraty com a vinda de Shannon e o empenho de Amorim para explicar melhor a posição brasileira: “O Brasil pode contribuir e ser uma voz positiva em temas sobre o Oriente Médio e o Irã”, disse Amorim, acrescentando que, durante a visita do presidente Mahmoud Ahmadinejad, o Brasil manifestou sua preocupação em relação aos direitos humanos no Irã. Por fim, Amorim pediu a Shannon calma nas negociações, pois mais pressão poderia gerar resistência interna. “Está claro que o ministro do exterior está ansioso para começar a nova fase de relações entre o Brasil e os EUA. Da perspectiva brasileira, o diálogo sobre temas não só regionais, como globais, será importante”, comentou Shannon no telegrama.
O recado parece ter sido compreendido. No auge da crise, o embaixador viajou a Washington para acalmar o governo americano, como conta o professor Matias Spektor. “O fato de Shannon ter legitimidade como interlocutor foi decisivo para que isso não se tornasse crítico. E continua sendo importante agora, em que o Brasil emerge como potência internacional, e ainda não está claro como isto está sendo recebido em Washington, há uma série de interesses que sentem essa ascensão como um risco”, diz Specktor.
Shannon tem atuado no sentido que o Brasil deseja: “A partir de agora, os Estados Unidos precisam tratar o Brasil de igual para igual”, costuma afirmar.
O embaixador mostra-se, inclusive, mais sofisticado nas análises sobre a eleição presidencial de 2010 do que outros integrantes do corpo consular. Enquanto Shannon tenta relatar os fatos com sobriedade, funcionários da embaixada enviavam despachos a Washington que nem o mais fanático dos eleitores tucanos seria capaz de acreditar. A possibilidade de Aécio Neves aceitar o posto de vice na chapa de José Serra, descartada pelo senador mineiro no fim de 2009, ainda era dada como certa nos telegramas do início do ano seguinte. Sem falar no balão de ensaio de uma dobradinha Serra-Marina Silva, sustentado com entusiasmo em despachos durante o processo eleitoral.
Shannon tem se esforçado em prol das relações bilaterais, mas não tem sido fácil. O governo Obama deixou claro que não vai apoiar demandas do Brasil, como o assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, nem acabar com a tarifa sobre a importação do etanol, outra reivindicação importante de Brasília. Além disso, alguns telegramas da embaixada revelam que nos últimos anos os EUA fizeram um verdadeiro boicote às pretensões brasileiras de ter um programa espacial e nuclear independente.
Talvez seja por isso que o vazamento do WikiLeaks tenha dado tantas dores de cabeça a Shannon. Segundo o embaixador, seu trabalho foi afetado pela quebra da “garantia de confidencialidade” que permitiria conduzir “discussões francas” e o “diálogo honesto” entre os países.
Valeu a pena?
Para alguns especialistas, porém, a publicidade dos telegramas pode, surpreendentemente, favorecer as relações bilaterais. “O benefício foi maior do que o dano”, diz o ex-embaixador Rubens Ricupero. “Muita coisa de que se suspeitava foi confirmada, como a existência de um antiamericanismo gratuito em uma parte do governo brasileiro, enquanto outros setores dentro do próprio governo se mostram mais abertos. Ou seja, não é um bloco fechado, há espaço para uma mudança psicológica que pode se refletir em uma relação melhor entre os dois países, com menos preconceitos”, afirma Ricupero.
“Para quem está lá nos Estados Unidos, saber que existem essas diferentes visões entre Ministério da Defesa e Itamaraty ou entre Itamaraty e Planalto serve como filtro para as informações que recebem do Brasil”, completa o professor Matias Specktor.
Parece ser nisso que os governos dos dois países estão apostando. Enquanto o governo Lula minimizou a importância dos documentos e a sucessora Dilma sequer comentou as revelações mais recentes, o Itamaraty se esmera em preparar a visita do presidente Obama ao Brasil, marcada para os dias 19 e 20 de março, quando ele fará um discurso histórico. “Pelo que se sabe até agora, Obama vai dizer em alto e bom som que os Estados Unidos consideram positivo o fato de um país como o Brasil, uma grande democracia, estar emergindo como potência internacional – o que tem grande peso pois contraria interesses de setores americanos”, afirma Specktor.
Será a segunda visita do alto escalão americano neste ano – Hillary Clinton veio especialmente à posse de Dilma – algo inédito. Resta saber como a relação vai se equilibrar nessa corda bamba entre os conflitos de interesse e a vontade de aproximação. Pena que dessa vez o grande público não terá acesso aos bastidores da negociação – como permitiu o vazamento do WikiLeaks.
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