POEMA COMENTADO
Segue-se ao poema abaixo, que consta também em Palavras do Coração, seus comentários ** Os números servem como referência aos comentáriosVENTOS DO RIO GRANDE
1. Os sonhos não acabaram
2. Em marés tropicais nos deleitamos
3. Ondas cálidas se quebrando
4. Fragor rorejando pascigo à alma
Brisa intensa, alva areia como paina
Acalanto de refulgência inexprimível
Praia deserta e ao mesmo tempo repleta
Céu estupendo, irradiantemente próximo
Só nós sabemos quanto
10. Mundo lírico todo nosso
11. Mas apenas uma etapa da nossa vida ficou para trás
Novo universo vou apresentar-lhe
13. Atmosfera de paixão, a sutileza rufla livre
Levados pelo amor que nos move
Tua graça, teu pasmo, tão bem conheço
Célebre expressão de ternura
Em meio a nós, por melodioso arbítrio atrelados
Gorjeia uma formidável criação
Ânsia pelo divino, pousar em idílio de todo fértil
Vento que sopra suave, mas frio
Aljôfar por sobre as relvas trazendo um toque de esperança
Aos meus braços você
23. Fragrância de afeto pampeano
Caminhos que nos mantêm na meninice eterna
25. É cada risada que nos estreita e desprende mais
26. Gládio, faz fortes e dependentes
27. Eu prometi que a felicidade seria nossa
Ares diferentes nos aguardam
Rio Grande de coração
Vigoroso, cujas águas em ostentação com a flora
Cercam-nos por todos os lados
Só para dar as boas-vindas
É o Guaíba anunciando que somos dele
34. A chalana acena, o pegureiro nunca nos abandonará
35. Áurea talhe vertida em glória
Navega pelo caminho da venturosa eternidade
37. A esparzir a mensagem que temos
38. Outono lisonjeiro mimetizado
39. Extasiante espertar de um verão para sempre alteado
40. Resplendor exclusivo do que, vicejante, contemplador
41. Sonha, doa, sol poente, espetáculo à parte
A lua a reluzir em todo o Porto
Alegre por natureza, assim te amo
Uno pulsar cativando quem nos cruza
Pelos extremos da terra
Onde quer que transponhamos a corriqueira realidade
47. Rastro de sensação sobrenatural
48. Desembarcamos com o sorriso fácil
Dadivoso, nunca nos deixa
Voamos em busca de um sonho comum
51. Em terra de paladino Cavaleiro de Missões, paz inesgotável
52. A chamamos de nossa, mão estendida, colo suave
Ombro fagueiro do fiel anjo trovador
D'além estrelas pontilhando o céu azul
Celebrando a Deus que me deu você
Nenhures brilha tão fascinante
57. Quanto no Rio Grande do Sul
Natal - Canoas - Porto Alegre / verão e outono de 2006
Poema Ventos do Rio Grande comentado:
2. Em marés tropicais nos deleitamos - Tão espetacularmente inexprimíveis quanto estes momentos deleitosos, são as tropicais
marés do Nordeste brasileiro diante de nós - movimentos periódicos de elevação ou abaixamento das águas do mar, causadas pela atração da Lua.
3. Ondas cálidas se quebrando - Ondas quentes de Natal que nos encantam, cada fantástico estrondo das ondas marcando profundamente nosso coração, ondas cálidas e efusivas, calorosas, comunicativas, aplicando-se figura de prosopopéia, isto é, atribuindo característica humana às ondas, personificando-as.
4. Fragor rorejando pascigo à alma - As ondas quentes do mar estrondeiam profundamente em nós, cujo
fragor vem rorejando-nos, isto é, molhando com pequenas gotas as quais, caindo como orvalho (rorejar, de maneira poética, também refere-se ao orvalho), são um alimento, pascigo à nossa alma.
13. Atmosfera de paixão, a sutileza rufla livre - A intensidade espiritual, a tenuidade ruflam, batem asas para alçar voo, livres neste ambiente apaixonado.
23. Fragrância de afeto pampeano - A região dos Pampas gaúchos ocupam extensa área na Argentina, Uruguai e nas regiões sul e sudoeste do estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, ocupando dois terços do território do estado gaúcho brasileiro, cerca de 176 mil km quadrados. A paisagem dos Pampas é de uma imensidão das planícies cobertas de gramíneas. O vento é marcante no cenário pampeano, fator vital na configuração da paisagem; o vento minuano, companheiro nos dias de inverno, moldou não só a paisagem como também o temperamento do homem, influenciando seus hábitos. Essa paisagem bucólica dos Pampas que está no imaginário popular, abriga inúmeras outras paisagens e ecossistemas, além das planícies cobertas por campos nativos.
25 e 26. É cada risada que nos estreita e desprende mais /
Gládio, faz fortes e dependentes - Quanto mais nos amamos, mais crianças e ao mesmo tempo, paradoxalmente, mais fortes tornamo-nos perante o mundo, um gládio (faca de dois gumes) diário - e tudo isso diariamente... não!, momentaneamente somos mais dependentes um do outro!
34. A chalana acena, o pegureiro nunca nos abandonará - Lá de cima, enquanto descíamos, avistávamos a fauna e a flora do Rio Grande do Sul, e a chalana descendo pelas águas do rio Guaíba. Dentro dela, o pegureiro, pastor da nossa alma que prometeu nunca nos deixar sós, acena com Sua fidelidade e alegria da salvação.
35. Áurea talhe vertida em glória - Um dia em minha vida, observei literalmente o áureo, maravilhoso aspecto da talhe, isto é, do corpo do pegureiro transbordando em honra e afeto. Tal talhe foi derramada em glória por ocasião de Sua ressurreição, e glória a mim por tê-la uma vez contemplado. quando criança.
37. A esparzir a mensagem que temos - Amor pela vida e pela criação, uma mensagem difundida, indissociável da grande mensagem que levamos conosco: deixada pelo pegureiro de nossas almas, a Boa-Nova. Boa Notícia que, com Sua ajuda, temos levado na boca e no coração, pelos extremos da terra.
38 e 39. Outono lisonjeiro mimetizado /
Extasiante espertar de um verão para sempre alteado - Do verso 38 ao 39, há uma elipse, ou seja, omissão de um termo (no caso, preposição + artigo definido "ao", no fim do verso 38) ligando um verso ao outro, já que, no poema, a ordem cronológica muda de acordo com o sentido que se aplica aos versos - para que haja essa dualidade, faz-se necessário que os versos sejam ligados e, ao mesmo tempo, independentes de certa forma, daí o uso da figura de linguagem, a elipse:
a. Outono gaúcho, adaptado (mimetizado) ao verão natalense- colocado para todo o sempre no topo mais alto da história da nossa vida - tão cheio de êxtase da cidade de Natal, anterior ao aprazível outono que nos aguardava nos Pampas;
b. Neste segundo sentido os versos isolam-se, de certa forma, um do outro, e o verso 38 é consequente ao 39. O outono orgulhoso, prometedor (lisonjeiro) apareceu bruscamente, mudança consoante (e necessária) ao meio - neste sentido retrata a morte do pegureiro-. Cronologicamente, opondo-se ao primeiro sentido, o "outono" (morte) ocorre antes do "verão" - a ressurreição de Jesus-. Neste segundo sentido, os dois versos retratam a entrega da vida e a ascensão do Salvador do mundo três dias depois. No primeiro sentido, portanto, o verso 38 vem depois do 39, enquanto no segundo, antes.
40. Resplendor exclusivo do que, vicejante, contemplador - Ambas as situações que se aplicam aos versos 38 e 39 estão dispostas a todos. Porém, tal brilho intenso é contemplado por "espíritos jovens", aqueles que se tornam um menino de novo, e cuja conseqüência é a seguinte:
41. Sonha, doa, Sol poente, espetáculo à parte - Sonhos, doações, ainda que custe a própria vida, mesmo que não seja pela própria causa, frutos inerentes. Quem vive apaixonado, sonha, doa-se, vive com semblante e alma raiantes, vitamina espiritual nas adversidades. Condição comparada a uma das maiores exibições de gala da natureza neste país, absolutamente apaixonante: o pôr-do-Sol às margens do rio Guaíba - assistir a esse evento, sentado no gramado tomando chimarrão, é um espetáculo tradicional gaúcho que só quem já o provou pode descrever (se é que realmente pode). Da mesma maneira, apenas quem vive livre de preconceitos, mas ama, se doa, conhece a profundidade do prazer de viver, viver com intensidade livre dos vícios da alma, mas em sintonia com a vida e seu Criador.
44 e 45. Uno pulsar cativando quem nos cruza /
Pelos extremos da terra - De norte a sul desta terra, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, um entusiasmo e carisma que conquistam onde passamos. Ouro e prata não compram o carinho que recebemos e transmitimos, produtos de beleza não adquirem este carisma.
51. Em terra de paladino Cavaleiro de Missões, paz inesgotável - Os paladinos eram cada um dos principais cavaleiros que acompanhavam Carlos Magno nas batalhas, e hoje aplica-se a alguém que é bravo, defensor ardoroso de algo ou alguém. Usado como substantivo ou adjetivo, excelentemente se aplica, aqui, a Jesus e Sua missão final, Aquele que há de vir no último dia montado em um cavalo branco, com vestes brancas manchadas de sangue, com a espada da vida que é a Palavra de Deus para vencer o pecado e a morte.
Há dupla referência a
Cavaleiro de Missões: além de Jesus, lembra Sepe Tiaraju, cacique guarani que liderou bravamente a defesa da região dos Sete Povos das Missões, correspondente à parte do território que hoje pertence ao Rio Grande do Sul. Os portugueses reivindicaram as terras indígenas, exigindo deles partida a terras uruguaias. Mas os nativos recusavam-se a deixar aquele que há séculos foi seu solo, desencadeando sucessivos e massacrante conflitos, conhecidos como Guerra Guaranítica, estendendo-se de 1753 a 1756 e causando sérias perdas aos índios, que acabaram dispersos na região.
Paz inesgotável em meio a dificuldades: incomparável e incompreendida aos que tentam insistentemente provar o contrário na vida de quem reconciliou-se com Deus, através daquilo que Jesus fez na cruz do Calvário: erguer a cabeça e saber que não carrega consigo o peso e os altos preços do pecado: o Cavaleiro das Missões de Deus pagou preço muito maior, a morte na cruz; aliás, todo o preço que o mal requerer-nos-ia Jesus pagou para que tivéssemos vida. Com todas as tormentas e injustiças deste mundo, ter alegria e dormir em paz, a certeza de que a eternidade é um generoso presente de Deus, a qual não precisa resumir-se ao aqui e agora nem aos temores do amanhã, tudo isso é um inspirante e eterno privilégio!
52. Nos chama de sua, mão estendida, colo suave - A hospitalidade da terra gaúcha, onde sentimos o afago e o cuidado de Jesus o Pão sempre dividido, que sacia nossa fome e carência espiritual, Aquele que é a Justiça dos Seus. O que Era é sempre Será sobre todos, Ressurreto, Rei das nações e das nossas vidas.
LÍNGUA & PRECONCEITO
'Presidenta' ou 'Presidente'?
3 de maio de 2016 / Publicado em Pravda Brasil , e em Global Research (Canadá)Uma das manifestações mais vivas da realidade cultural de uma nação e da identidade do indivíduo, a língua está sempre em transformação de acordo exatamente com as relações sociais, e não com as vontades dos
gramaticoides de plantão, geralmente instrumentos de opressão linguística que não consideram em seus estudos, excessivamente teóricos, as implicações sociais envolvendo o idioma em questão.
Tal mutação também deu origem a novas línguas ao longo da história. Assim,
vi em sueco, em norueguês e em dinamarquês (
nós, em português) deságua em
wir em alemão,
wij em holandês e
we em inglês.
Vogn em norueguês e em dinamarquês transformou-se em
vagn em sueco, que equivale a
Wagen em alemão,
wagon em inglês, em holandês e em francês (com pronúncias diversas),
vagone em italiano,
vagon em romeno,
vagón em espanhol e em galego,
vagó em catalão,
bagoi em basco,
vagão em português.
Já a modalidade esportiva que hoje é a mais popular do planeta, de
fotball na Noruega acabou
fotboll na vizinha Suécia, vindo a ser
voetbal na Holanda,
fodbold na vizinha Dinamarca, desceu um pouco mais o mapa do norte europeu para se transformar em
Fußball na Alemanha,
football em francês e em inglês que se hispanizou
fútbol e se aportuguesou sendo simplesmente
futebol, certamente, no início, gerando inconformismo nos setores mais conservadores das sociedades falantes de língua espanhola e portuguesa por não ser pronunciado como em inglés (algo semelhante a
fuut-ból), da mesma maneira que
lead em inglês, referindo-se ao primeiro paragrafo das notícias, virou
lide em português.
Leader foi transformado, naturalmente, em
líder o que, assim como nos outros casos, muito provavelmente gerou risadas e muita ridicularização no início do aportugesamento, especialmente entre os espíritos mais conservadores e reacionários em geral.
Por sua vez, o idioma chamorro da ilha asiática de Guam, a oeste do Oceano Pacífico, que sofreu colonização espanhola de 1668 até 1898, possui os seguintes exemplos desse processo linguístico: Bem vindo = Bien binidu (em espanhol,
Bienvenido); Boa tarde = Buenas tåtdes (esp.,
Buenas tardes); Tchau = Ådios esta (esp.
Adiós); Boa sorte = Buena suette (esp.,
Buena suerte); Boa viagem = Buen biåhe (esp.,
Buen viaje, pronunciado como em português
buen biarre, note-se que, exatamente, como falado em chamorro cujo idioma tem o
h gutural).
Retrocesso e Discriminação
Opondo-se a esta natural transformação até que se torna impossível resistir por muito tempo, os
gramaticoides estudam a língua de maneira estática, a gramática pela gramática que se encerra na própria gramática, não tendo a sociedade como referência, autêntico sujeito da história: para eles, a sociedade e a própria história são objeto da gramática. Desta maneira, apregoam, deve-se adequar sua realidade, sua história, seus sentimentos, sua personalidade a ela. Em outras palavras: deve-se se submeter ao que lhe é ditado por seres completamente afastados de sua realidade cultural. No caso do Brasil, escravizado em pleno século XXI pelas regras e pela cultura lusitana que não é a sua, trancafiado neuroticamente em uma, na prática, inexistente
comunidade lusófona internacional.
Como a sociedade brasileira é altamente polarizada e discriminadora, em todos os aspectos (regional, étnico, sexista, de gênero, de classe), tal caráter acaba se refletindo, invariavelmente, em um tipo de fragmentação e de preconceito que permeiam a sociedade ao mesmo tempo que acabam passando desapercebidos diante do forte apelo moralista e da reivindicação intelectual que os discriminadores trazem em seu bojo: a discriminação linguística, fortemente opressora.
A polarização, que se evidencia de maneira inconteste nestes efervescentes dias no Brasil, tem atingido inclusive linguistas das mais diversas vertentes, radicalizando cada vez mais ambos os lados. Se por um lado é inegável que a língua bem falada não pode ter como parâmetro a literatura portuguesa do século XIX, que possui peculiaridades regionais (regionalismos) absolutamente necessárias que devem ser preservadas e que, conforme já observado, ela se transforma (evolutivamente, espera-se) como reflexo das mais diversas experiências passadas de geração a geração (este é o conceito de cultura), por outro é inaceitável se justificar a língua mal falada neste quesito.
E exatamente isso tem ocorrido no Brasil: acentuada polarização entre gramaticoides - indivíduos de mentalidade elitista, a qual se transfere para a esquizofrenia linguística - e, digamos assim, os populistas que, no afã de ganhar adeptos na raivosa briga que atinge a classe dos linguistas, apela inclusive para, "quem está defendendo tal ideia linguística são os mesmos golpistas conservadores que saem às ruas hoje contra o povo", a fim de estigmatizar toda e qualquer divergência (embora exista um grande fundo de verdade nisso, o que será abordado a seguir).
Evidentemente, existe um limite entre regionalismo, entre a realidade cultural de uma comunidade/nação, isto é, aquilo que se configura como perfeitamente aceitável dada a realidade inclusive daquela elite intelectual específica (segurem na cadeira, o "noi fumo" do campo paulista herdado do italiano
noi =
nós, por exemplo, tendo como célebre representante Adoniran Barbosa), e determinados atentados linguísticos que não podem ser tolerados (o secular "tu qués" do estado brasileiro de Santa Catarina, mesmo entre a elite econômica local, por exemplo, ou o "dar
ele para
eu"). Este é o motivo de choque entre as vaidades de não poucos linguistas hoje.
'Presidenta' ou 'Presidente'?
O
furor gramatical dos últimos anos no Brasil tem estado principalmente voltado ao uso de "presidenta" ou "presidente", desde que Dilma Rousseff ganhou as eleições presidenciais em 2010. Dilma solicitou que lhe fosse aplicado o primeiro caso, suficiente para que uma das elites econômicas, auto-creditada
nata intelectual das mais ignorantes do globo passasse a se manifestar de maneira tão contrária quanto o forte caráter que os marca: exatamente a ignorância dos fatos que alardeia dominar.
As classes média e alta têm causado grande polêmica sobre isso, que toma conta das faculdades de Letras e de Comunicação Social de péssimo gosto no Brasil - em sua maioria contrários, indignados diante do uso de 'presidenta'. Trata-se de mais um tema em que simplesmente não há diálogo, mesmo entre estudantes e profissionais da área das letras e da comunicação.
Pois trata-se também de mais um preconceito que, contra a "presidenta" Dilma, manifesta-se desde que assumiu o Palácio do Planalto das mais diversas maneiras; na verdade, todas as mulheres em um país, conforme apontado, altamente machista que permeia todos os segmentos da sociedade, da classe D à A.
O que a
nata intelectual tupiniquim ignora (também) sobre o uso de "presidenta", é que esta forma feminina foi aprovada por lei federal número 2749, no ano de 1956. Embora não haja consenso entre linguistas sob alegação de determinados setores de que "presidenta" pertence à classe das palavras comuns de dois gêneros, ambas as formas acabam sendo aceitas, tanto a feminina quanto a masculina. Contudo, no sentido estritamente gramatical, a regra manda aplicar a forma feminina. No idioma espanhol, por exemplo, apenas "presidenta" é admitido para mulheres.
A divergência entre linguistas se dá pela ampla consideração entre eles de que, segundo comunicado através do dicionário
Lexikon, "substantivos e adjetivos de dois gêneros terminados em -ente não apresentam flexão de gênero terminado em -a". Por isso, segue o informe, não se utiliza as formas "'gerenta", 'pacienta', 'clienta' etc. Caso fosse 'presidenta', por coerência, diríamos 'a presidenta está contenta' e 'o presidente está contento'".
Ao longo da história, algumas formas masculinas têm encontrado resistência em serem usadas oficialmente no feminino justamente pelo caráter sexista das sociedades globais. Entre a sociedade brasileira, especialmente entre linguistas o termo "engenheira", utilizado pela primeira vez e aprovado nos idos do século XIX, gerou indignação inicial. Hoje, apenas a forma feminina é aplicada às profissionais da área do sexo feminino.
Se entre linguistas brasileiros o que aparentemente está em discussão são questões técnicas para a flexão do termo, a sociedade não tem pautado a
histeria com base na consciência gramatical, longe disso: completamente afastada dela, permite que o que é regra, apesar da controvérsia de certos linguistas, seja motivo para polarização recheada do velho ódio discriminatório.
Como nos mais diversos casos atualmente no Brasil, que caminha de mal a pior, nossa elite do
bem-dizer e do
alto-saber, nesta questão do uso de "presidenta" ou "presidente", para não perder o costume tem se fundamentado em letra morta - mas aqui, o que tampouco é exceção, com um
quê de ironia que marca de maneira bastante peculiar tais
caçadores de bruxas: a mesma gramática à qual agressivamente se apegam (apenas de maneira teórica) para atacar e discriminar, a contradiz.
Também para o bom uso da nossa língua, o brasileiro anda precisando de livros, sim (e urgentemente), mas muito mais que isso: carece do exercício da cidadania que requer sentir o
cheiro do povo. Isso tudo faz lembrar a ideia de Jesus aos fariseus de sua época, a cúpula religiosa conservadora, parasitária e corrupta: Quanto mais estudam menos sabem, e mais se distanciam de suas causas. Foram os próprios religiosos, mais estudiosos que esperavam pelo Messias, os que mataram Jesus fechados em suas letras mortas, tornados míopes por suas ideias pré-concebidas que produziam intolerância. Tropeçaram fatalmente naquilo que tanto usavam para atacar ao próximo.
Contextualizando tal realidade à brasileira dos tempos atuais, é exatamente nossa elite econômica e
bem educada nas faculdades, que comercializam diplomas e formam grandes imbecis à sociedade, que estão matando nossa democracia acarretando, no futuro próximo, mais retrocesso cultural. De novo...
Samba bom nunca morre: Desesperar Jamais